A Ciência de Escutar o Invisível: Como a fisioterapeuta e pesquisadora Carina Bezerra Rocha amplia a forma como a área da saúde compreende o zumbido
- Evely Oliveira

- há 34 minutos
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Existem carreiras que seguem caminhos previsíveis dentro de uma profissão. E existem aquelas que começam com uma inquietação silenciosa, quase impossível de ignorar.
No caso da fisioterapeuta e pesquisadora Carina Bezerra Rocha, tudo parece ter começado com uma recusa íntima em aceitar respostas prontas.
Ainda no início da formação, havia uma sensação clara de que repetir caminhos já completamente explorados não seria suficiente. A curiosidade intelectual parecia empurrá-la na direção oposta, para perguntas que ainda não haviam sido totalmente formuladas.
Esse impulso a levou ao estudo das disfunções temporomandibulares, um campo que conecta musculatura, dor e função mandibular. Foi nesse território clínico que uma pergunta inesperada começou a surgir. Se músculos e articulações da face podem influenciar tantas funções do corpo, por que não poderiam também influenciar algo aparentemente distante, como o zumbido?
Hoje essa pergunta parece natural dentro da literatura científica. Mas quando ela começou a explorá-la, o território ainda era difuso e pouco investigado.

Com o tempo, aquela curiosidade inicial deixaria de ser apenas uma intuição clínica e passaria a se transformar em pesquisa. Um de seus primeiros estudos sobre a relação entre estruturas musculoesqueléticas e o zumbido ajudou a ampliar a discussão sobre o chamado zumbido somatossensorial, campo que investiga como diferentes sistemas do corpo podem influenciar a percepção do zumbido.
A repercussão daquele estudo ultrapassou o ambiente acadêmico de forma inesperada. O trabalho acabou sendo citado pelo The New York Times, levando uma investigação conduzida por uma fisioterapeuta brasileira a circular em um dos maiores jornais do mundo.

Para ela, no entanto, o impacto mais profundo da pesquisa não se mede apenas pela visibilidade.
Ele aparece no consultório.
Ao longo de mais de duas décadas atendendo pacientes com zumbido, uma realidade passou a se repetir com frequência inquietante. Muitas pessoas chegam após uma longa jornada em busca de respostas, carregando exames, diagnósticos e uma frase que ouviram inúmeras vezes ao longo do caminho. A de que o zumbido não tem tratamento.

Foi ouvindo essas histórias que sua investigação deixou de ser apenas científica e passou a assumir uma dimensão profundamente humana.
A própria pesquisadora gosta de se descrever por meio de uma metáfora curiosa. A da cabra-montesa, animal conhecido pela precisão com que escolhe cada passo e pela capacidade de avançar por terrenos onde poucos se aventuram.
Hoje, a trajetória de Carina Bezerra Rocha atravessa três frentes que se alimentam mutuamente. A clínica, onde pacientes buscam alívio para um sintoma frequentemente negligenciado. A ciência, que procura compreender melhor os mecanismos que o sustentam. E a educação, por meio da qual ela forma profissionais e compartilha conhecimento sobre um tema que ainda desafia muitas certezas da medicina.

Se durante muito tempo o zumbido foi tratado como um território sem respostas, sua trajetória aponta para outra possibilidade.
A de que compreender certos sintomas exige algo que a ciência e a medicina nem sempre exercitam com tempo suficiente.
Escuta.
Escutar o corpo.
Escutar o paciente.
Escutar aquilo que existe além do ruído.

Depois de construir uma trajetória sólida entre clínica, ciência e formação de profissionais, Carina Bezerra Rocha tornou-se uma das vozes mais consistentes na investigação do zumbido dentro da área da saúde. Conversamos com a pesquisadora sobre ciência, escuta e os caminhos que ainda precisam ser explorados.
Sua trajetória como fisioterapeuta pioneira na área de zumbido atravessa mais de duas décadas entre pesquisa científica, prática clínica e formação de profissionais. Em algum momento dessa jornada você percebeu que estava construindo um novo modo de compreender o zumbido dentro da área da saúde?
Desde muito cedo na minha formação eu tinha um receio muito claro: o de cair naquilo que gosto de chamar de melancolia intelectual, o território do “mais do mesmo”. Eu não queria me tornar uma profissional de um livro só.
Essa inquietação surgiu ainda no final da graduação, quando fui escolher o tema do meu trabalho de conclusão de curso. Procurei algo que flertasse com meu interesse clínico, mas que ao mesmo tempo explorasse um território pouco percorrido pelos meus colegas. Foi assim que comecei a estudar a atuação do fisioterapeuta nas disfunções temporomandibulares.
Pouco tempo depois, o zumbido entrou na minha vida de forma inesperada. E rapidamente me encantei com a ideia de pesquisar dentro desta área. Havia sido criado um fio condutor na minha cabeça entre a via somatossensorial (muscular) e a via auditiva (zumbido), mesmo sem eu nunca ter lido nenhum artigo na literatura científica.
O verdadeiro ponto de virada aconteceu em 2008, quando publiquei o primeiro artigo científico sobre zumbido escrito por um fisioterapeuta. Naquele momento percebi que estávamos abrindo um novo campo de discussão sobre como esse sintoma poderia ser compreendido, avaliado e tratado.
A repercussão foi muito maior do que eu imaginava. O estudo acabou sendo citado pelo The New York Times, e ali ficou claro para mim que aquele caminho de investigação tinha potencial para ampliar a forma como o zumbido vinha sendo abordado dentro da área da saúde.
Isso tudo foi um bom despertar. Um grande turning point.

Seu trabalho ajudou a consolidar o conceito de zumbido somatossensorial, conectando sistemas do corpo que por muito tempo foram estudados de maneira isolada. O que essa descoberta revelou para você sobre os limites de uma medicina excessivamente fragmentada e sobre a importância de olhar o corpo humano de forma mais integrada?
Quando iniciei minhas pesquisas, entrei em contato com o trabalho do médico neurologista Robert Levine, que havia levantado a hipótese de uma interação entre a via somatossensorial e o zumbido. Aquilo foi revelador para mim, porque mostrou que essa conexão entre sistemas nunca esteve ausente. Ela sempre existiu. O que faltava era percepção clínica para reconhecê-la.
O verdadeiro problema não era a ausência de conhecimento, mas a sua desidratação dentro da prática clínica. Porque ciência que permanece confinada ao papel sofre um processo silencioso de fossilização.
Costumo explicar o surgimento do zumbido usando a metáfora de um copo. A base desse copo geralmente é a perda auditiva ou alguma alteração na via auditiva. Mas o nível do líquido vai subindo à medida que diferentes fatores se acumulam. Influências musculares, emocionais e sistêmicas podem aumentar esse nível até que o copo transborde e o zumbido se torne perceptível para o paciente.
Essa perspectiva me revelou algo importante: reduzir o paciente com zumbido a uma única estrutura anatômica é um tipo de miopia clínica. O corpo humano não funciona em compartimentos isolados. Ele opera como uma rede viva de interdependências fisiológicas.

Muitas pessoas que convivem com zumbido descrevem uma jornada marcada por frustração, incerteza e, muitas vezes, pela sensação de invisibilidade dentro do próprio sistema de saúde. Ao longo da sua carreira, houve encontros ou histórias de pacientes que transformaram profundamente a forma como você passou a compreender esse sofrimento?
Ao longo desses anos aprendi que o zumbido pode assumir muitas faces. Desde pacientes dominados por pensamentos catastróficos até aqueles que convivem com o sintoma sem sofrimento algum. Todos eles ensinam algo e deixam sua marca.
São mais de duas décadas atendendo cerca de cinquenta pacientes com zumbido por semana. Crianças, adultos, idosos. Histórias muito diferentes atravessando o mesmo sintoma.
Já me emocionei profundamente ouvindo relatos complexos. Já celebrei com entusiasmo os casos de remissão completa. Mas existe algo que ainda me inquieta profundamente: a frequência com que esses pacientes chegam ao consultório carregando a mesma frase que ouviram repetidas vezes ao longo do caminho, a de que o zumbido não tem nenhum tratamento.
Esse tipo de afirmação cria algo silencioso dentro da medicina: uma forma de invisibilidade clínica.
O zumbido talvez seja um dos sintomas que mais sofrem com o reducionismo clínico dentro da medicina. Uma das bandeiras que levanto com mais convicção é justamente combater esse estreitamento conceitual. O zumbido não pode continuar aprisionado em um pensamento monotemático, e muito menos em um pressuposto falacioso.

Além da pesquisa e da prática clínica, você também se tornou uma educadora ao formar profissionais e compartilhar conhecimento. Em que momento percebeu que seu trabalho também significava construir uma comunidade de profissionais com expertise em zumbido capazes de olhar para o sintoma com mais profundidade, escuta e sensibilidade?
Essa percepção surgiu de duas experiências muito marcantes. A primeira foi começar a ouvir os resultados clínicos dos meus alunos e perceber que muitos de seus pacientes também estavam alcançando a remissão completa do zumbido. Naquele momento ficou claro para mim que o conhecimento havia deixado de ser algo concentrado e começava a se tornar algo vivo, em expansão.
A segunda transformação aconteceu quando passamos a discutir casos clínicos em um verdadeiro diálogo entre pares. Aos poucos deixei de me ver como a única fisioterapeuta navegando nesse território e comecei a reconhecer uma geração de profissionais profundamente comprometidos com o cuidado desses pacientes.
Durante muito tempo caminhei praticamente sozinha nesse território. Hoje vejo algo que me emociona: um ecossistema crescente de clínicos investigando o zumbido com mais profundidade, mais escuta e mais sensibilidade humana. E é esse ecossistema que eu quero preservar.
A espinha dorsal da minha missão é simples: ampliar, ano após ano, o número de pacientes que conseguem alcançar a remissão do zumbido. E isso só acontece quando o conhecimento e as conquistas deixam de ser patrimônio individual e passam a circular entre profissionais preparados para enxergar o paciente para além do sintoma.

A construção de uma carreira científica raramente segue um caminho linear. Ao investigar um tema que durante muito tempo recebeu pouca atenção dentro da área da saúde, houve momentos de dúvida, resistência ou até isolamento intelectual? O que sustentou sua decisão de continuar? Depois de tantos anos dedicados à pesquisa, ao cuidado com pacientes e à formação de novos profissionais, qual você sente que é hoje a sua voz dentro desse campo?
Uma analogia que eu costumo fazer com a minha personalidade, e que sempre me agradou, é a da cabra-montesa. Não apenas pela persistência, pela precisão ao escolher cada passo ou pela capacidade de sobreviver em ambientes hostis, mas principalmente por uma característica muito particular: ela vai exatamente onde quase ninguém vai.
E eu escolhi um território que muitos profissionais preferem evitar. E para percorrer esse território eu sabia que não bastava curiosidade. Era preciso resistência.
O zumbido é um pouco assim. Um território clínico complexo e frequentemente negligenciado. Durante muito tempo, a resposta mais comum oferecida aos pacientes foi simplesmente que não havia muito a fazer. Isso cria um tipo silencioso de abandono dentro da própria área da saúde.
Eu senti que precisava subir esta montanha.
E foi o encontro com tantos pacientes desamparados que sustentou minha decisão de continuar. Pacientes que não sofriam apenas com um sintoma, mas com a sensação de não serem compreendidos. Foi ali que percebi que desistir desse campo seria a escolha mais fácil, mas não necessariamente a mais responsável.
Curiosamente, eu costumo dizer que não fui eu quem escolheu o zumbido. De certa forma, foi ele que me escolheu. As coisas que são nossas acabam achando a gente. Toda a minha vida profissional acabou orbitando esse tema: minha prática clínica, pesquisas, a formação de profissionais e também a educação que compartilho nas redes sociais.
Há ainda dois fatos curiosos nessa história. Eu mesma tive um episódio de zumbido há cerca de dez anos, que depois entrou em remissão completa. E minha filha se chama Melissa, um nome de origem grega que significa abelha. Gosto de pensar nisso como um símbolo involuntário de algo que constrói, pouco a pouco.
Hoje sinto que minha voz dentro desse campo não está em apenas um lugar. Ela existe na interseção entre clínica, ciência e educação. Para transformar a vida de um paciente no consultório, preciso do estudo e da pesquisa bem conduzida.
Para ensinar outros profissionais, preciso da pesquisa e da experiência clínica. E nas redes sociais procuro cumprir um papel igualmente importante: disseminar informação básica, clara e responsável. Porque no zumbido, muitas vezes, o tratamento começa antes de qualquer intervenção. Ele começa quando o paciente finalmente recebe informação correta.

Se pudesse amplificar uma única mensagem para o mundo sobre o zumbido e sobre a forma como lidamos com esse sofrimento, qual gostaria que fosse realmente ouvida e compreendida?
Se eu pudesse amplificar uma única mensagem sobre o zumbido para o mundo, seria esta: zumbido tem tratamento.
Tratar o zumbido não significa apenas alcançar a remissão total do sintoma. Na prática clínica existem muitos tons de cinza entre o sofrimento intenso e o silêncio absoluto. Reduzir o volume do zumbido é tratar. Torná-lo intermitente é tratar. Diminuir o sofrimento do paciente também é tratar.
O zumbido é um sintoma exigente. Ele exige muito de quem sofre, mas também de nós, profissionais de saúde. Por isso, pacientes precisam buscar profissionais com experiência real no tema.
E aos profissionais de saúde deixo um apelo.
Poucas frases são tão devastadoras para um paciente quanto ouvir que “zumbido não tem tratamento”. Quando não soubermos conduzir um caso, encaminhar é um ato de responsabilidade e respeito.
Porque na área da saúde, retirar a esperança de um paciente nunca pode ser mais fácil do que buscar caminhos para ajudá-lo.

































