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ARTEMISI : THE HOLY MATTER

há 5 dias
4 min de leitura

A engenharia do sagrado


Em sua coleção para a SPFW N61, Mayari Jubini aproxima misticismo, tecnologia e trabalho artesanal. Para compreender a linguagem da Artemisi, é preciso olhar também para a formação cultural que antecede suas criações.


Lembro da primeira vez que vi a Artemisi. Minha identificação com o trabalho de Mayari Jubini ganhou outra dimensão quando a ouvi falar sobre repertório cultural. Reconheci uma curiosidade que também me move: a vontade de transitar entre universos diferentes e perceber o que acontece quando eles se encontram. Dostoiévski e Stanley Kubrick pertencem a linguagens distintas, mas podem participar da formação de um mesmo olhar. O que me chamou a atenção não foi a variedade das referências em si, mas a possibilidade de transformá-las em uma maneira própria de ver.



O repertório não se mede pela quantidade de obras que conhecemos, mas pelo que fazemos com elas. Uma leitura pode alterar nossa percepção de personagens; um filme pode permanecer na memória pela atmosfera, pelo ritmo ou pela maneira como constrói uma narrativa. Essas experiências se cruzam, ganham novos significados e, com o tempo, passam a influenciar nossas escolhas. Na criação, essa bagagem se torna particularmente interessante quando já não precisa ser citada para estar presente.


Essa perspectiva ajuda a compreender a Artemisi para além da aparência de suas peças. Em entrevista publicada pela Hooks Magazine em 2025, Mayari falou sobre revisitar experiências que a marcaram e transformá-las na estética da marca. Em The Holy Matter, essa relação entre imaginário e criação encontra expressão em uma coleção que não depende apenas dos símbolos escolhidos, mas também da maneira como formas, materiais e volumes constroem uma atmosfera própria.



Apresentada na São Paulo Fashion Week N61, em outubro de 2026, a coleção reuniu 27 looks orientados por referências à alquimia, ao misticismo e à engenharia manual. Corsets esculturais, vestidos bordados, plumas, pedrarias, máscaras e acessórios que remetem a halos compõem um universo em que o angelical e o profano convivem. O efeito nasce tanto dos elementos simbólicos quanto do contraste entre estruturas rígidas e superfícies ornamentadas, que alteram a silhueta e afastam o corpo de sua representação cotidiana.



As máscaras merecem atenção particular. Ao ocultarem os rostos, deslocam o olhar para a postura, o contorno do corpo e a composição de cada look. O acessório deixa de funcionar apenas como complemento e passa a participar da construção de uma figura. Há algo de ritualístico nessa escolha: a identidade individual recua, enquanto a roupa e seus elementos assumem maior presença. A imagem não depende de um rosto para produzir significado; é construída pela relação entre corpo, matéria e forma.



A realização dessas imagens exigiu uma escala expressiva de trabalho. Segundo os dados divulgados sobre a coleção, foram mais de 20 mil horas de trabalho manual e aproximadamente 700 mil cristais e pedrarias. Algumas peças ultrapassaram 100 mil aplicações, enquanto determinadas criações exigiram até 1.200 horas de execução. A impressão 3D também aparece em vestidos e acessórios, ampliando as possibilidades construtivas da marca.


O look de abertura oferece um exemplo concreto dessa pesquisa. Para alcançar o acabamento cromado desejado, foram necessários meses de testes. Depois da impressão, a estrutura ainda passa por etapas de preparação, lixamento, polimento e pintura manual. A tecnologia permite desenvolver a forma, mas não entrega o resultado acabado. É preciso encontrar soluções para a superfície, testar materiais e ajustar o processo até que o objeto corresponda à intenção visual.


Essa combinação não se resume à presença simultânea de técnicas modernas e artesanais. Cada procedimento precisa cumprir uma função dentro da criação. A impressão 3D viabiliza determinadas estruturas; os cristais acrescentam densidade e textura; o acabamento define como a superfície reage à luz. O trabalho está em coordenar essas escolhas para que a complexidade dos materiais não se sobreponha à proposta da peça.



Quando o vestuário se aproxima da escultura, a relação com o corpo também exige atenção. Peso, sustentação e mobilidade integram o desenvolvimento de estruturas que desafiam a modelagem convencional. Nem toda criação de passarela precisa ser pensada para o cotidiano, mas a experimentação formal continua dependendo de soluções concretas para o corpo que veste cada peça. A liberdade de forma não dispensa o conhecimento técnico; torna seu papel ainda mais evidente.


É nesse ponto que a discussão sobre repertório encontra a materialidade da coleção. Conhecer literatura, cinema e outras formas de expressão pode ampliar as possibilidades de associação, mas não determina o resultado. Entre uma referência cultural e uma peça de roupa existe um percurso de interpretação, escolhas e execução. Na Artemisi, esse percurso precisa responder tanto ao imaginário místico de The Holy Matter quanto às exigências concretas de sua construção.



Minha identificação com Mayari vai além do impacto visual do desfile. Interessa-me a possibilidade de uma criadora alimentar seu trabalho com experiências que ultrapassam os limites da própria profissão e encontrar maneiras de levá-las para aquilo que faz. Não é a referência isolada que torna uma criação particular, mas a maneira como ela é assimilada e transformada.


Em The Holy Matter, o resultado está diante de nós: estruturas tridimensionais, superfícies trabalhadas à mão e imagens que transitam entre o sagrado e o profano. Por trás delas, há uma pesquisa que envolve tanto a formação do olhar quanto a descoberta dos meios necessários para concretizá-lo.


Na Artemisi, o repertório não funciona como legenda para as peças. Ele aparece nas decisões que as tornam possíveis.

 
 
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