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BELLE ZORZI: La Dolce Vita, depois do recomeço

há 13 minutos
8 min de leitura

ITALY COVER EDITION - SEPTEMBER 2026 ISSUE

BELLE ZORZI: La Dolce Vita, depois do recomeço
Photo: @demmacedo / Model: @bellezorzi / Beauty: @loe.roma / Video: @olivervideomaker_ / Styling: @abrunnaeler / Location: Roma / PR: @sigth.coom / Executive leadership: @jheelunna / Fashion Director Hooks: @evelyoliveira / Editor-In-Chief Hooks: @directorhooks / Travel agency: @planejamento.viagem @eagleofpersonaltravel / Clutch: @syetvie

Toda partida começa antes da mala.


Começa muito antes do aeroporto, quando uma pessoa passa a olhar para a própria vida e imaginar como seria existir em outro lugar. Às vezes, essa vontade nasce da necessidade. Outras vezes, nasce justamente quando não há nada aparentemente errado.


E talvez essa seja uma das decisões mais difíceis de tomar.

É diferente partir porque não há mais escolha e partir quando ainda existem razões suficientes para ficar.



Quem deixa uma vida que funcionava não leva apenas documentos, roupas e objetos. Leva referências. Um nome profissional que já significa alguma coisa. Relações construídas ao longo dos anos. Hábitos que não precisam ser pensados. A familiaridade de saber como as coisas funcionam e, principalmente, a sensação de saber quem se é dentro daquele mundo.


Até que se chega a outro.


No começo, tudo parece maior. As diferenças chamam atenção, os detalhes ganham importância, o cotidiano tem a intensidade de uma descoberta. Existe uma espécie de suspensão da vida anterior. Por algum tempo, quase tudo parece possível porque quase nada ainda foi testado pela realidade.



Mas nenhum lugar permanece novidade para sempre.


Em algum momento, a paisagem deixa de ser descoberta e passa a ser endereço. A língua deixa de ser curiosidade e passa a ser necessidade. As escolhas deixam de parecer uma aventura e começam a produzir consequências concretas.


É aí que a experiência de viver fora costuma mudar de natureza.

Porque existe uma diferença profunda entre conhecer um país e construir uma vida nele.



A primeira pode acontecer em dias. A segunda exige tempo.

E, nesse intervalo, o imigrante é colocado diante de uma experiência que talvez seja uma das mais desconcertantes de qualquer mudança: perceber que aquilo que funcionava como uma definição de si mesmo pode não funcionar mais da mesma maneira.


Não significa que tenha deixado de existir.

Significa que precisa ser reinterpretado.


É por isso que a imigração pode ser, ao mesmo tempo, uma experiência geográfica e uma experiência de identidade. O endereço muda primeiro. O restante vem depois.



Há pessoas que passam anos tentando reconstruir exatamente a vida que tinham antes. Há outras que entendem, pouco a pouco, que a oportunidade de estar em outro lugar também pode ser a oportunidade de descobrir uma versão de si que o antigo contexto nunca exigiu.


Nenhum desses caminhos é simples.


Recomeçar envolve uma espécie de luto pelo que ficou para trás, mas também uma liberdade difícil de explicar. Quando as antigas referências perdem parte da força, surge uma pergunta incômoda: se eu não precisar mais ser exatamente quem eu era, quem posso me tornar?


Talvez seja essa a pergunta que acompanha todo verdadeiro recomeço.



E ela não costuma ser respondida no aeroporto, nem no primeiro dia, nem quando as fotografias começam a aparecer nas redes sociais.


É respondida no cotidiano.


Nas escolhas que ninguém vê. Nos dias em que é preciso continuar sem ter certeza. Na capacidade de olhar para aquilo que não saiu como planejado sem confundir mudança de rota com fracasso.


É nesse ponto que a história de Belle Zorzi se torna especialmente interessante.


Porque ela não parte de uma narrativa de ruptura. Não havia uma vida em ruínas esperando por uma saída. Havia uma vida construída, vínculos, trabalho e uma realidade que poderia ter sido suficiente para permanecer.



Mas havia também a consciência de que uma vida pode estar funcionando e, ainda assim, não conter todas as possibilidades que uma pessoa deseja experimentar.


Essa distinção muda tudo.


Porque, quando partir não é uma fuga, a decisão deixa de ser apenas sobre o lugar para onde se vai. Passa a ser sobre a pessoa que se está disposta a se tornar depois de ir.


Foi a partir dessa escolha que Belle começou seu capítulo na Itália.


E talvez a parte mais interessante dessa história não esteja apenas no país que ela escolheu, mas em tudo aquilo que precisou ser revisto quando a mulher que existia antes da partida encontrou uma realidade que já não respondia às mesmas regras.



É nessa fronteira entre a vida que se conhece e aquela que ainda não existe que começa a nossa conversa com Belle Zorzi.


1. Vocês tinham uma vida profissional estruturada no Brasil, mas decidiram deixar tudo para trás e começar do zero na Itália. O que estava faltando naquela vida que fez vocês entenderem que valia a pena correr o risco de recomeçar?


Eu acho que não faltava exatamente alguma coisa. A gente tinha uma vida boa no Brasil, tinha trabalho, família, amigos, uma vida estruturada. Mas existia em mim uma vontade muito grande de descobrir o que mais a vida poderia ser.
Eu sempre tive muito medo de chegar lá na frente e perceber que vivi uma vida inteira no mesmo lugar simplesmente porque era mais confortável ficar. Eu queria conhecer outros lugares, outras culturas, ter mais liberdade, trabalhar de qualquer lugar e construir uma vida que fizesse sentido para nós.
E talvez por isso tenha sido tão difícil tomar a decisão. Porque é muito mais fácil ir embora quando você não tem nada a perder. Nós tínhamos. Mesmo assim, entendemos que algumas coisas só acontecem quando você aceita trocar a segurança do que já conhece pela possibilidade de construir algo novo.

2. Você chegou à Itália como advogada e, de repente, precisou lidar com uma realidade em que a sua formação já não tinha o mesmo peso. Depois de tantos “nãos” e até de ouvir que não conseguiria trabalhar por não falar bem italiano, o que mudou dentro de você para que decidisse criar a própria oportunidade?


Essa foi provavelmente uma das partes mais difíceis de morar fora.
Eu sou formada em Direito, advoguei no Brasil e cheguei à Itália percebendo que tudo aquilo que eu tinha construído profissionalmente não necessariamente atravessava a fronteira comigo.
Eu ouvi “não” muitas vezes. Ouvi que meu italiano não era bom o suficiente, que seria difícil conseguir trabalho e comecei a entender que poderia passar muito tempo esperando alguém decidir me dar uma oportunidade.
Até que pensei: se ninguém está me dando uma oportunidade, eu vou criar a minha.
Eu já trabalhava com internet há alguns anos, já criava conteúdo e tinha conhecimentos de marketing. Então, comecei a olhar menos para aquilo que eu tinha perdido profissionalmente e mais para aquilo que eu sabia fazer.
A maior mudança aconteceu aí. Eu parei de esperar que alguém validasse a minha capacidade para começar.

3. A partir dessa decisão, vocês começaram a construir uma nova fonte de renda pela internet. Como foi transformar aquilo que vocês já sabiam fazer em serviços pelos quais alguém estivesse disposto a pagar? E qual foi o primeiro trabalho que fez vocês perceberem que aquilo realmente poderia dar certo?


No começo, foi muito na base do: “O que nós sabemos fazer que pode resolver um problema de alguém?”.
Principalmente algo que não dependesse da minha comunicação em italiano, que era algo que eu ainda estava desenvolvendo.
Mas eu não podia esperar meu italiano ficar perfeito para começar a ganhar dinheiro.
Eu já tinha experiência com criação de conteúdo e marketing digital, e o David também foi entrando nesse universo comigo. Então, começamos a oferecer criação de conteúdo, edição de vídeo, social media, sites e outros serviços digitais.
Só que saber fazer alguma coisa e transformar isso em um negócio são coisas completamente diferentes. A gente precisou aprender a vender, prospectar, precificar, negociar, lidar com clientes e, principalmente, mostrar valor.
O primeiro trabalho foi como videomaker, fazendo edição e social media para um salão de beleza.
Eu vi que a Itália não estava tão avançada no marketing. Muitos negócios ainda nem têm redes sociais. Ou, se têm, não alimentam. Ou, se alimentam, falta qualidade no material.
Foi aí que eu vi um oceano de oportunidades.
Começamos com negócios pequenos, mas cada cliente novo era quase uma confirmação de que aquilo poderia existir para além da nossa cabeça.
Até chegar um momento em que começamos a perceber que não era mais uma tentativa de fazer renda pela internet. Estava se tornando o nosso trabalho.
E acho que essa percepção não aconteceu em um único grande momento. Foi acontecendo aos poucos: quando um cliente indicava outro, quando alguém voltava a contratar, até que o que começou como trabalho freelancer se transformou em uma agência de marketing.

4. Hoje vocês construíram uma rotina muito diferente daquela que tinham no Brasil. Existe, porém, uma parte dessa liberdade que não aparece nas redes: os riscos, os meses difíceis, a necessidade de conquistar clientes e fazer o negócio se sustentar. O que existe por trás da vida que vocês escolheram construir e que quase ninguém vê?


Existe muita incerteza.
A liberdade é maravilhosa, mas ela vem acompanhada de responsabilidade. Quando você trabalha por conta própria, não existe necessariamente um salário garantido entrando no final do mês. Você precisa conquistar clientes, entregar, administrar, pensar no mês seguinte e continuar fazendo o negócio crescer.
Nas redes aparecem as viagens, os lugares bonitos, a possibilidade de trabalhar de diferentes lugares. O que não aparece tanto são as horas no computador, as propostas que não são aceitas, os clientes que vão embora, os meses melhores e os meses piores, o medo de alguma coisa dar errado e a pressão de saber que depende de você fazer funcionar.
E eu não falo isso para romantizar a dificuldade, porque não acho que sofrer seja pré-requisito para conquistar alguma coisa. É simplesmente o outro lado da liberdade.
Mas, ainda assim, eu escolheria essa vida de novo. Até a liberdade tem um preço, mas eu não troco por nada a satisfação de construir algo nosso.

5. Quando você olha para a mulher que chegou à Itália, com medo de não conseguir sobreviver, e para a mulher que existe hoje, o que você acredita que mais se transformou em você? E, depois de tudo o que já construiu, o que ainda sente que precisa ou deseja construir?


Eu passei a confiar muito mais na minha capacidade de me reconstruir.
Quando cheguei à Itália, a minha maior dúvida era: “Como eu vou fazer as coisas darem certo?”.
E eu descobri que somos capazes de muito quando paramos de duvidar e temos coragem de ir atrás. Quando não deixamos os outros ditarem até onde podemos chegar.
Eu ouvi que não conseguiria trabalhar porque não falava italiano, vi a minha formação perder o peso que tinha no Brasil e, por um momento, realmente me questionei sobre o que seria capaz de fazer aqui.
Hoje eu percebo que muitas vezes a gente coloca a nossa segurança nas coisas que conquistou: uma profissão, um emprego, um salário, uma posição. E morar fora me fez descobrir uma segurança muito maior, que é confiar em mim mesma.
Porque, se eu consegui construir uma vida do zero em outro país, aprender coisas que eu nunca imaginei que aprenderia e criar oportunidades onde elas não existiam, hoje eu tenho muito menos medo de tentar.
E ainda quero construir muita coisa. Eu sou uma pessoa muito sonhadora e ambiciosa. Não necessariamente no sentido de ter mais coisas, mas de viver mais coisas. Quero conhecer o mundo, crescer profissionalmente, conquistar cada vez mais liberdade e continuar descobrindo até onde eu posso chegar.

6. E, por último, mas não menos importante: qual é a sua voz? Se você tivesse a oportunidade de dizer alguma coisa para o mundo, sem filtros, sem medo e sem precisar caber nas expectativas de ninguém, o que você gostaria de gritar?


Se eu pudesse gritar alguma coisa para o mundo, seria: não adie a sua vida esperando ter certeza de tudo.
A gente cresce acreditando que precisa saber exatamente quem é, o que quer fazer e onde quer chegar. E que, depois que escolhe um caminho, precisa continuar nele para que tudo o que veio antes tenha valido a pena.
Mas você pode mudar de ideia. Pode descobrir que aquilo que quis durante anos já não faz mais sentido. Pode mudar de profissão, de país, de sonhos. Pode se tornar uma pessoa completamente diferente daquela que imaginou que seria.
E você não precisa esperar se sentir pronta para isso. Algumas das decisões mais importantes da nossa vida acontecem quando ainda estamos com medo, sem todas as respostas e sem saber exatamente como vamos fazer dar certo.
Também aprendi que não posso tomar decisões sobre a minha vida pensando no que os outros esperam de mim. Nem todo mundo vai entender os caminhos que você escolhe, e tudo bem. No final, viver tentando corresponder às expectativas de todo mundo pode custar justamente a vida que você gostaria de ter vivido.
Se permita mudar.
Se permita começar antes de estar pronta.
Se permita escolher uma vida que faça sentido para você, mesmo que não faça sentido para mais ninguém.
Afinal, a vida é SUA!!!

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