DESconstrução: Quando a moda deixa de ser padrão e passa a ser encontro
- Evely Oliveira
- há 1 hora
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Em um cenário em que a moda ainda sustenta, muitas vezes de forma silenciosa, estruturas de exclusão, o Projeto DESconstrução emerge não apenas como proposta estética, mas como gesto político e sensível de ruptura. Mais do que questionar padrões, ele tensiona narrativas, desloca centros e reconfigura o olhar.
Idealizado por Anderson Macedo, o projeto nasce de uma inquietação legítima diante da padronização da beleza, não apenas como imagem, mas como construção histórica, social e simbólica. Desde 2017, sua intenção se mantém precisa: ampliar o campo de visão, expandir o acesso e reposicionar os corpos e histórias que, por tanto tempo, foram mantidos à margem.

Ao longo de sua trajetória, o DESconstrução se consolida como um manifesto visual que atravessa moda, arte e representatividade. Se, em seus primeiros movimentos, encontrou eco em artistas e influenciadores, com o tempo o projeto se aprofundou e, nesse processo, revelou novas urgências. Aproximar-se de realidades historicamente invisibilizadas não foi um desvio de rota, mas um desdobramento natural de sua essência.

Nesta edição especial, realizada em parceria com o Programa Social de Moradia Transitória Vila Reencontro Tiradentes, o projeto se insere em um território atravessado por vulnerabilidade social, mas também por potência, resistência e reconstrução. Aqui, as imagens não operam como fuga da realidade, mas como ferramenta de reposicionamento dentro dela.

O que se revela não é uma transformação superficial, mas um deslocamento interno. Um instante em que o espelho deixa de refletir ausência e passa a afirmar presença. Um momento em que essas mulheres se reconhecem a partir de um lugar que, por muito tempo, lhes foi negado: o centro.

A presença de Ana Terra adiciona densidade a essa construção. Ao acompanhar o ensaio e conduzir diálogos com as participantes, sua escuta ativa estabelece uma ponte entre imagem e narrativa, entre estética e vivência. O resultado não é apenas visual, é relacional, é humano, atravessado por troca.
Mais do que um ensaio, DESconstrução se afirma como território de encontro.
Entre moda e verdade. Entre imagem e identidade. Entre o olhar externo e o reconhecimento íntimo.

É a partir desse espaço que se inicia a conversa com seu idealizador.
O projeto DESconstrução nasce de uma inquietação e de um encontro com realidades muito específicas. Como aconteceu essa aproximação com a moradia transitória e em que momento você percebeu que essas histórias precisavam se transformar em imagem?
Conheci a Vila Transitória por meio de uma ação social em parceria com o Instituto Human. O que encontrei ali não foram apenas histórias de vulnerabilidade, mas narrativas de força, reconstrução e desejo de futuro. Havia uma potência latente e foi nesse momento que entendi que a moda e a imagem poderiam atuar como ferramentas de amplificação desse olhar. Não como solução, mas como possibilidade de reposicionamento de como essas mulheres se enxergam e são vistas.

O nome DESconstrução carrega uma ideia potente. O que, na prática, está sendo desconstruído através dessas mulheres, dessas imagens e das narrativas construídas ao longo do projeto?
O que buscamos desconstruir é, antes de tudo, a ideia restrita de quem pertence à moda. Durante muito tempo, ela foi apresentada como um território limitado, tanto na forma como é comunicada quanto em quem ocupa esse espaço. O projeto tensiona essa lógica. A cada ensaio, a cada encontro, o que vemos é uma mudança de postura, presença e percepção. As pessoas passam a se reconhecer dentro da imagem, não como exceção, mas como parte legítima dela. E isso transforma.

Esta edição se insere em um contexto de vulnerabilidade, mas também de potência feminina. Como construir um olhar que não romantize essas vivências e, ao mesmo tempo, revele a força que existe nelas?
Esse é um cuidado constante. Trabalhamos com uma equipe que entende profundamente a responsabilidade do projeto. Antes de qualquer direção estética, existe escuta, existe estudo. Cada pessoa é compreendida em sua individualidade, e a construção do ensaio parte dessa essência. A moda entra como linguagem, não como imposição. O objetivo nunca é suavizar a realidade, mas criar uma imagem que dialogue com ela de forma honesta e respeitosa.

Trabalhar com pessoas fora do circuito tradicional da moda desloca o processo criativo. O que esse projeto exigiu de você como fotógrafo e diretor criativo, em termos de linguagem, escuta e construção estética?
Exigiu presença. Mais do que técnica, esse projeto pede disponibilidade para ouvir, observar e adaptar. Cada ensaio traz uma dinâmica própria, e isso desloca qualquer fórmula pronta. A linguagem se constrói no encontro. A estética nasce da relação. Como diretor, meu papel é conduzir esse processo com sensibilidade, garantindo que a imagem final não seja apenas bonita, mas verdadeira.

Existe uma linha tênue entre representar e expor. Durante o DESconstrução, como você construiu um ambiente de confiança para que essas mulheres se sentissem, de fato, vistas e não apenas retratadas?
A confiança é construída no processo. Desde o primeiro contato até o momento do ensaio, tudo é feito com cuidado, transparência e respeito. Não existe distinção na forma como tratamos as pessoas. A experiência de set, direção e entrega é a mesma para todos. Isso cria um ambiente onde elas não estão sendo observadas, mas participando ativamente da construção da própria imagem. E isso faz toda a diferença.
O projeto afirma que todos estão na moda e que a arte está em todos. Depois dessa experiência, o que essa ideia passou a significar para você na prática? Existe algum momento ou encontro que tenha redefinido essa percepção?
Essa ideia sempre esteve presente na minha trajetória, mas o projeto aprofundou esse entendimento. Venho de um contexto familiar que já trazia essa sensibilidade, com uma mãe assistente social e um irmão envolvido em ações comunitárias. Sempre estive próximo de diferentes realidades. O DESconstrução materializa isso. Ele transforma um pensamento em prática. E, ao longo do caminho, cada encontro reforça que a beleza não está em um padrão, mas na singularidade de cada história.






























