DR. FELIPE GASPARINI: A CIÊNCIA DE SABER QUANDO TRANSFORMAR
- Evely Oliveira

- 7 de ago.
- 6 min de leitura
'BEAUTY' EDITION COVER - AUGUST 2026 ISSUE

Dr. Felipe Gasparini entende a Dermatologia como o encontro entre ciência, precisão e sensibilidade. Entre a disciplina aprendida no judô, a formação científica e os avanços da Dermatologia, sua prática parte de uma convicção cada vez mais rara: nem tudo aquilo que pode ser transformado precisa ser modificado.
Aos 16 anos, Felipe já havia conquistado a faixa preta de judô. Mais tarde, chegou à Seleção Brasileira. O esporte de alto rendimento lhe ensinou disciplina, preparação e constância, mas também algo menos evidente: permanecer sob pressão sem perder a clareza.
Na Medicina, essa formação encontrou outro tipo de desafio.
A ciência entrou cedo nessa construção. Durante a graduação, Felipe se dedicou à pesquisa e à produção científica, experiência que ampliou sua maneira de pensar a prática médica. Vieram a vivência internacional em Dermatologia e a especialização na UNIFESP, consolidando um olhar guiado menos pela pressa de responder e mais pela necessidade de investigar, questionar e compreender.

Essa postura ganha particular importância em uma especialidade que evolui em velocidade extraordinária.
A Dermatologia contemporânea oferece tecnologias e possibilidades terapêuticas cada vez mais sofisticadas. Para Felipe, porém, a questão mais importante continua sendo anterior à escolha de qualquer recurso: o que realmente faz sentido para aquela pessoa?
É uma pergunta simples, mas que exige conhecimento para ser respondida.
Tecnologia amplia o repertório. A ciência oferece evidências. A experiência permite reconhecer nuances. E é o julgamento clínico que transforma tudo isso em uma decisão.

É nesse encontro que a ciência também encontra a estética.
O rosto não é apenas uma estrutura anatômica. Ele carrega expressão, tempo, identidade e a maneira como cada pessoa se reconhece no mundo. Uma queixa aparentemente objetiva pode, portanto, carregar expectativas muito mais profundas. Antes de pensar em intervenção, existe algo que precisa ser compreendido: o que aquela pessoa realmente procura.
Por isso, a escuta ocupa um lugar tão importante em sua prática.
Felipe entende a naturalidade não como uma estética específica, mas como consequência de uma intervenção bem indicada, capaz de respeitar proporções, características e identidade. O objetivo não é criar uma nova versão de alguém, mas cuidar daquilo que já existe sem apagar sua origem.

Essa perspectiva ganha ainda mais força em um momento em que filtros, algoritmos e referências estéticas tornam os padrões visuais cada vez mais homogêneos. O acesso a imagens aumentou, mas a diversidade do que consideramos belo nem sempre acompanhou esse movimento.
Nesse cenário, preservar a identidade pode ser tão sofisticado quanto transformar.
Talvez exista uma conexão silenciosa entre o atleta e o médico. No judô, força sem controle não é excelência. Técnica exige estratégia, preparo e consciência do momento certo. Na Dermatologia, essa mesma lógica encontra outra linguagem: nem sempre fazer mais significa cuidar melhor.
E quanto mais a Medicina amplia aquilo que pode fazer, maior se torna a responsabilidade sobre aquilo que se escolhe fazer.
É nesse espaço que Felipe encontra sua própria definição de excelência. Não apenas na capacidade técnica de intervir, mas no discernimento para saber quando, como e por que intervir.
Porque um resultado verdadeiramente sofisticado não precisa anunciar o procedimento. Não precisa apagar expressão, história ou identidade.

Pode ser justamente aquele que preserva, com precisão e sensibilidade, aquilo que torna cada pessoa única.
Aos 16 anos, você já havia conquistado a faixa preta e, mais tarde, chegou à Seleção Brasileira de Judô. O esporte de alto rendimento ensina que resultado é consequência de disciplina, repetição e da capacidade de permanecer sob pressão. Olhando para o médico que você se tornou, quais princípios aprendidos no tatame continuam orientando suas decisões até hoje?
O judô foi a primeira grande escola da minha vida. Muito antes da Medicina, aprendi que disciplina é uma escolha diária e que a consistência sempre supera soluções imediatas. No tatame, entendi que é possível manter a serenidade mesmo diante da pressão, respeitar o tempo de cada processo e nunca subestimar a importância da preparação.
Hoje percebo que esses princípios continuam presentes em todas as decisões que tomo como médico. A Dermatologia exige conhecimento técnico, mas também equilíbrio emocional, responsabilidade e capacidade de decidir com clareza, especialmente quando cada escolha impacta diretamente a vida de alguém. O esporte me ensinou que excelência não nasce de um momento extraordinário, mas da repetição silenciosa de atitudes corretas ao longo do tempo.

Antes de se dedicar integralmente à Dermatologia, sua trajetória passou pela pesquisa e pela produção científica. A ciência ensina que toda resposta nasce, primeiro, de uma boa dúvida. Como essa forma de pensar influencia a maneira como você conduz um paciente que espera uma resposta imediata, mas cuja melhor decisão talvez exija tempo, investigação e prudência?
Durante os seis anos da graduação em Medicina, a pesquisa científica fez parte da minha formação e mudou profundamente a forma como aprendi a enxergar a profissão. A ciência nos ensina que uma boa resposta começa, antes de tudo, com uma boa pergunta. Aprendemos a questionar, investigar e reconhecer que nem sempre a primeira hipótese é a mais correta.
Levo esse raciocínio para o consultório todos os dias. Nem todo diagnóstico deve ser apressado e nem toda expectativa pode ser atendida imediatamente. Muitas vezes, o melhor cuidado exige tempo, investigação e a tranquilidade de reconhecer que prudência também faz parte da Medicina.
Acredito que a pesquisa nos torna profissionais mais críticos, mais humildes diante das incertezas e, principalmente, mais responsáveis pelas decisões que tomamos. Quando existe ciência por trás da prática clínica, o paciente recebe muito mais do que uma resposta rápida; ele recebe uma decisão construída com conhecimento, reflexão e segurança.

A Dermatologia vive um momento de extraordinária evolução, impulsionada por novas tecnologias e possibilidades terapêuticas. Em um cenário em que inovação e tendência frequentemente caminham lado a lado, como você desenvolveu o discernimento para reconhecer aquilo que realmente representa um avanço para o paciente?
A inovação sempre despertou meu interesse, mas acredito que ela só faz sentido quando melhora, de forma concreta, a experiência e os resultados do paciente. Em uma especialidade que evolui tão rapidamente, é natural que muitas novidades despertem entusiasmo. Ainda assim, aprendi que inovação e valor nem sempre caminham na mesma velocidade.
Tenho o privilégio de integrar o Grupo Adriana Vilarinho, um ambiente que estimula atualização constante, discussão científica e contato diário com tecnologias de ponta. Essa vivência reforçou uma convicção importante: o verdadeiro avanço não está em utilizar o recurso mais recente, mas em compreender quando ele realmente faz sentido para aquela pessoa.
No fim, tecnologia é ferramenta. O diferencial continua sendo o julgamento clínico, a individualização e a capacidade de escolher o tratamento mais adequado, e não necessariamente o mais novo.

Existe, muitas vezes, uma distância entre aquilo que o paciente deseja mudar e aquilo de que realmente precisa. Ao longo da sua experiência, como o exercício da escuta transformou a sua compreensão sobre beleza, autoestima e, sobretudo, sobre o limite entre realçar uma característica e preservar a identidade de alguém?
Acredito que uma consulta começa muito antes do exame físico. Ela começa quando o paciente percebe que está sendo verdadeiramente ouvido.
Com o tempo, compreendi que a queixa inicial raramente resume toda a história. Muitas vezes, por trás de um detalhe estético, existem expectativas, inseguranças e experiências que precisam ser compreendidas antes de qualquer proposta de tratamento.
Essa escuta mudou completamente minha forma de entender a beleza. Hoje acredito que ela não está na transformação, mas na preservação da identidade. Meu trabalho nunca foi criar um novo rosto, e sim valorizar aquilo que torna cada pessoa única.
Quando a técnica respeita a individualidade, o resultado deixa de chamar atenção pelo procedimento e passa a chamar atenção pela naturalidade.

Quanto mais recursos a Medicina oferece, maior parece ser a responsabilidade de decidir quando não utilizá-los. Depois de tudo o que a profissão lhe ensinou, o que hoje define, para você, um resultado verdadeiramente bem sucedido?
Durante muito tempo, pensei que um bom resultado estivesse relacionado apenas à qualidade técnica do procedimento. Hoje acredito que ele começa muito antes da execução.
Um resultado verdadeiramente bem-sucedido é aquele em que existe indicação correta, expectativa alinhada e respeito absoluto pela individualidade do paciente. Também aprendi que maturidade profissional significa saber dizer “não” quando necessário.
A Medicina oferece recursos extraordinários, mas eles só têm valor quando utilizados com critério. Para mim, o maior reconhecimento acontece quando o paciente se olha no espelho, percebe a mudança e, ao mesmo tempo, continua enxergando a própria história refletida ali.

Para encerrarmos, existe algum princípio que você carrega para além da Medicina, algo que o esporte, a ciência e a própria vida lhe ensinaram e que hoje considera essencial para a maneira como escolhe viver?
Se existe um princípio que procuro cultivar diariamente, é a consciência de que sempre há espaço para evoluir.
O esporte me ensinou disciplina. A ciência me ensinou curiosidade. A Medicina me ensinou humildade.
Talvez essa seja a combinação que mais influencia a maneira como escolho viver. Continuar aprendendo sem perder a capacidade de ouvir, buscar excelência sem abrir mão da sensibilidade e entender que conhecimento só encontra seu verdadeiro valor quando é colocado a serviço das pessoas.

































