Vanessa Wonsovicz: A permanência como linguagem
- Evely Oliveira

- há 6 dias
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Algumas trajetórias não se constroem a partir de rupturas evidentes, mas de permanência. De uma decisão silenciosa de continuar, mesmo quando o entorno não valida, não compreende ou desencoraja. A história de Vanessa Wonsovicz se inscreve nesse lugar. Menos como o surgimento de uma influenciadora e mais como a formação de uma voz que aprendeu a se sustentar no tempo.
Muito antes de o digital se consolidar como indústria, Vanessa já experimentava a imagem como linguagem. Nos primeiros ambientes de sociabilidade online, como Orkut e Fotolog, ela se produzia, criava registros e se colocava em circulação com naturalidade. Não havia método nem ambição de carreira. Havia curiosidade, desejo de expressão e uma necessidade genuína de ser vista e ouvida.

Em 2011, durante as férias da faculdade, essa intuição encontrou um novo espaço. Observando a escassez de criadoras de conteúdo no YouTube brasileiro, especialmente no universo da beleza, Vanessa decidiu gravar seu primeiro vídeo. Sem equipamentos, sem roteiro e sem qualquer projeção de futuro. O gesto era simples, quase ingênuo, mas sustentado por algo essencial: autenticidade.
O crescimento veio de forma orgânica. As visualizações se multiplicaram, os seguidores chegaram e, com eles, a troca. Mesmo após retomar a rotina acadêmica, ela seguiu criando nos fins de semana, não por obrigação, mas por afinidade. Criar era, antes de tudo, um espaço de pertencimento.
Natural de Quitandinha, no interior do Paraná, e posteriormente em Bom Jesus, no Rio Grande do Sul, Vanessa enfrentou cedo os efeitos da exposição. Em cidades pequenas, a visibilidade costuma ser interpretada como excesso. Vieram os julgamentos, o preconceito, os comentários hostis, os risos travestidos de crítica. Ainda assim, ela permaneceu.

Sem estrutura profissional ou equipamentos adequados, tudo era construído de forma artesanal. Amigos e familiares ajudavam nas fotos, os vídeos eram gravados com os recursos disponíveis, e o conteúdo se expandia entre o blog, com looks do dia, e o YouTube, voltado à beleza. Alguns vídeos ultrapassaram o limite do nicho e se tornaram marcos de sua trajetória, como a customização de um sapato com glitter e a transformação de uma camisa em saia.
Nada aconteceu de forma imediata. Houve repetição. Houve constância. Houve aprendizado contínuo. Vanessa atravessou as transformações do ambiente digital enquanto amadurecia junto com ele, construindo uma presença que se sustentou menos pelo ruído e mais pela permanência.
Mais de uma década depois, o que ancora sua relevância não é apenas alcance, mas vínculo. As mensagens que recebe revelam um impacto que ultrapassa a superfície. Uma delas permanece como síntese de propósito. Uma mulher em depressão relatou que, ao assistir seus vídeos, voltou a sentir vontade de se arrumar, de cuidar de si, de sair da cama. Foi ali que Vanessa compreendeu que seu trabalho operava em uma dimensão mais profunda.

Hoje, especialmente no seu aniversário de 32 anos, ela reconhece o próprio percurso com clareza. Cresceu como mulher, como profissional e como comunicadora. Seu conteúdo amadureceu, tornou-se mais consciente e estruturado, sem perder a proximidade que sempre foi sua marca. Muitas de suas seguidoras cresceram ao seu lado, atravessaram fases semelhantes da vida e hoje formam uma comunidade majoritariamente feminina, engajada e madura.
Vanessa não se coloca como alguém que detém respostas definitivas. Sua fala parte da experiência, da observação e do compartilhamento. Seu propósito é contribuir para que outras mulheres se sintam mais seguras, não apenas na aparência, mas na construção interna de si mesmas.
É nesse equilíbrio entre cotidiano, permanência e intenção que sua voz se estabelece. Uma elegância que não nasce da distância, mas da presença. Do agora. Do tempo real.

1. Sua imagem pública amadureceu junto com sua trajetória no digital. Em que momento você percebeu que criar conteúdo deixou de ser apenas espontaneidade e passou a exigir consciência narrativa, curadoria e intenção?
Creio que veio de forma natural e gradual. Tudo começou muito espontâneo, um passatempo, um “diário virtual” de uma menina que amava moda e beleza. Mas, com o tempo, fui percebendo que minha comunicação impactava nas escolhas, na autoestima, na forma de agir e até mesmo na forma de pensar de quem me acompanhava, e isso é muito sério. Percebi que precisava ser responsável nas minhas narrativas, mas sem perder minha espontaneidade. Com o passar do tempo, fui aprendendo a conduzir isso. Hoje consigo equilibrar melhor essas questões, mas sigo aprendendo diariamente.

2. Você construiu uma relação muito direta com o público a partir do provador e do fast fashion, espaços muitas vezes vistos como imediatistas. Como você transforma esse consumo rápido em uma experiência de estilo que vá além do agora e consiga comunicar identidade e informação com a naturalidade que já marca o seu trabalho?
Eu descobri e entendi que o provador é um espaço que muitas vezes se torna a tradução de quem somos. É aquele lugarzinho em que ficamos sozinhas e podemos construir a imagem que queremos passar para o mundo dentro de cada peça escolhida. Então é mais do que consumo, é tradução da nossa identidade. Por isso, usei esse espaço para mostrar mais do que uma simples peça e, sim, contextualizar o todo: o que vai comunicar com ela, como adaptar à tua realidade, ao teu orçamento, como usar de diferentes maneiras e para diferentes estilos. E tudo isso de maneira leve, sem impor padrões ou regras. Principalmente dentro do fast fashion, acredito que é possível, sim, comunicar estilo, funcionalidade e informação. O imediato existe, mas o que sustenta minha relação com o público é mostrar que moda pode ser acessível sem ser descartável e, claro, com identidade.

3. Moda e beleza deixaram de ser apenas estética e passaram a ocupar um papel simbólico de pertencimento e expressão. Como você lida com a responsabilidade de comunicar estilo em um ambiente tão acelerado e saturado como o das redes sociais?
Com muito cuidado e leveza. Entendo que moda e beleza sempre carregaram significados, mas hoje carregam ainda mais camadas emocionais e sociais. Em um ambiente tão acelerado, tento desacelerar como posso: falar com clareza, leveza e até mesmo com brincadeiras, o que torna tudo mais original e verdadeiro. Não quero apenas acompanhar tendências, mas sim ajudar o público a se reconhecer nelas ou a escolher não segui-las. A responsabilidade está em não reforçar regras ou padrões inalcançáveis, e sim em lembrar que estilo é ferramenta de expressão e autoconhecimento.

4. Entre autenticidade e estratégia existe um território delicado. O que guia suas decisões quando sensibilidade pessoal, exigências comerciais e performance digital entram em tensão?
Equilíbrio e coerência guiam minhas escolhas. A autenticidade, na minha opinião, é uma das questões mais importantes quando falamos de carreira profissional no digital. Estratégias e profissionalismo são essenciais, mas, mesmo diante de toda a loucura que esse território se tornou, o público ainda pede e preza pela essência e pela verdade. Nem toda oportunidade comercial faz sentido para a minha história, e performance sem verdade não se sustenta a longo prazo. Estratégia é importante, mas ela precisa caminhar junto com sensibilidade e respeito pela minha própria trajetória.

5. Ao olhar para o futuro, que tipo de presença você deseja consolidar dentro da indústria da moda e do conteúdo: mais volume, mais profundidade ou novos formatos de influência?
Hoje busco mais profundidade. O volume é muito importante também e faz parte da construção da minha carreira, mas o futuro em que me imagino é o da relevância, do significado na vida das pessoas. Quero explorar novos formatos também, trazer conteúdos com personalidade e profissionalismo, mas algo que inspire e permaneça, que vá além do produto, além “apenas” da moda.

6. Qual é a sua voz e o que você gostaria de dizer ao mundo se tivesse a oportunidade de ser plenamente ouvida?
Minha voz é a de uma menina sonhadora que sempre correu atrás dos objetivos e aprendeu que a verdadeira beleza está em ser real, em ser você mesma, sem moldes ou regras. Gostaria de dizer que não é preciso caber na expectativa de ninguém, que se amar em primeiro lugar é o mais importante e que isso, junto com a autoestima e a confiança, pode te levar a lugares que jamais imaginou estar. E que, assim como no digital, podemos construir uma linda trajetória de vida sem perder a essência e escolhendo todos os dias ser honestos com nós mesmos e com as pessoas ao nosso redor.
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