Aliati Dermatologia: Beleza, Ciência e a Arte de Cuidar de Quem Está Prestes a Casar
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Ana Carolina e Inácio são dermatologistas, sócios e noivos. Para quem pensa que essa combinação exige uma separação rígida entre o profissional e o pessoal, a resposta deles é direta: não existe essa divisão, e tudo bem.

“A gente mistura. A gente fala de vida pessoal aqui e a gente fala de vida profissional em casa, porque às vezes o trabalho é muito intenso e a gente precisa dar conta, comendo um pouco das horas livres que nós temos, porque a demanda da clínica é muito alta”, conta Ana Carolina. “Mas a gente sempre cuida para que isso não afete o nosso relacionamento. Quando a gente sente que está muito estressado, que está muito pesado, um dá um toque para o outro. E aí, beleza. Agora vamos só viver a vida pessoal e vamos parar de falar de trabalho.”
Ela ri ao lembrar que, na véspera da entrevista, precisou colocar um ponto final na conversa: “Falei: ó, agora é 20 horas da noite. Vamos parar de falar de trabalho daí, tá bom?”
Do ponto de vista clínico, os dois raramente discordam. “A gente pede muita opinião um para o outro. E geralmente, quando o outro dá opinião, a gente concorda. A gente pensa muito parecido nas partes de pensamento clínico, dermatológico, estético, decisões sobre pacientes, decisões sobre o que fazer também de parte administrativa.” Quando alguma divergência aparece, a postura é simples: respeitam a decisão um do outro. “É muito raro quando tem uma discordância. E daí? A gente respeita a decisão do outro.”
O que facilita tudo, segundo eles, é que os valores são os mesmos.
“A gente tem os valores muito bem formados, e que são realmente os mesmos. A gente pensa muito igual. Aí fica fácil de tomar as decisões de forma conjunta.” Essa coerência se estende para a equipe, que foi montada com pessoas que compartilham ou compreendem esses valores. “Eles também sabem tomar as decisões ou resolver os problemas baseados nesses nossos valores.”
Inácio completa com uma perspectiva que resume bem a dinâmica entre os dois: “Quando temos dias difíceis que a gente precisa do apoio do outro, vamos ter o outro tanto no trabalho quanto em casa. A mesma coisa no trabalho, quando tem situações difíceis. Situações complexas. Melhor que dividir com tua esposa, com tua noiva, porque você confia plenamente.”
Para eles, ser casal e sócio é, acima de tudo, um facilitador. “O sucesso como dermatologistas que a gente tem até agora, em parte é também por isso, porque somos um casal. Porque a gente consegue trabalhar juntos. A gente consegue construir juntos. A gente vai no mesmo ritmo, no mesmo caminho, com o mesmo norte.”
A beleza como assunto delicado — especialmente no casamento
Quando o assunto muda para a prática clínica, Ana Carolina é cuidadosa ao explicar como enxerga a beleza. Não como uma regra, mas como uma percepção individual que precisa ser respeitada antes de qualquer intervenção.
“A primeira coisa é que eu não trabalho a beleza como uma regra. Embora exista um padrão. A gente estuda esses padrões, que trazem naturalmente para um inconsciente de quem vê uma sensação de que o rosto ou o corpo é bonito. E a gente sabe quais são esses padrões. Existe uma proporção áurea que já foi estudada por muitos pensadores da história.” Mas conhecer esses padrões não significa aplicá-los indiscriminadamente. “Só que eu não gosto de colocar todos esses padrões no paciente. Então, o meu objetivo é, primeiro, entender o que incomoda a pessoa.”
Essa distinção é central na abordagem da clínica. Se algo não incomoda a paciente, não precisa ser tratado, independentemente do que qualquer padrão estético diga. “Eu até enalteço. Nossa, que bonito o seu perfil. Que bonita a estrutura do seu rosto. Eu enalteço para que a pessoa consiga perceber também os pontos bonitos de beleza que ela já tem.”
Quando o casamento entra na equação, a sensibilidade precisa ser ainda maior. “A pressão estética para estar no seu melhor no dia do casamento pode ser enorme. Às vezes, as pessoas dão um pitaco em coisas que nem deveriam.” Ana Carolina observa que muitas noivas chegam carregando inseguranças antigas que vinham deixando para depois, e o casamento funciona como um gatilho. “O casamento bateu o reloginho e elas pensam: preciso fazer agora, porque eu preciso me ver depois nas fotos. Eu tenho que estar do jeito que eu quero estar.”
O ponto mais sensível, segundo ela, não é a vaidade em si, mas quando a pressão vem de fora. “Eu percebo muito do noivo para a noiva. E pressiona o noivo para fazer os procedimentos e o noivo não quer fazer nada.” Nesse momento, a postura é clara: “Noivo, é a noiva que quer? É tua mãe? É a tua sogra? Então nós não vamos fazer nada. Vamos tratar a acne que é doença. Gente, ele tem que ser feliz com quem ele é, e o desejo pela mudança também tem que vir dele.”
O boom dos procedimentos estéticos e o que preocupa
O Brasil é hoje um dos países que mais realiza procedimentos estéticos no mundo, e esse crescimento acelerado traz consequências que Ana Carolina observa com preocupação dentro do consultório.
“A gente está vivendo uma explosão de procedimentos estéticos. Antigamente eram os Estados Unidos. Representa cirurgias plásticas, mas o Brasil.” Com o aumento da demanda, multiplicaram-se também os profissionais que realizam esses procedimentos, médicos e não médicos, e, com eles, os casos de complicações. “Quanto menos conhecimento, mais risco de complicações. Isso também está bem demonstrado cientificamente. Então, quanto mais expertise, quanto maior formação, o risco de ter complicações é menor.”
Ela recebe com frequência pacientes que chegam com sequelas de procedimentos realizados em outros lugares. “Eu recebo muito paciente que vem de outros profissionais, que vem com complicações que eu preciso primeiro resolver, ou muitas vezes eu não consigo mais ajudar tanto o paciente por conta das complicações serem permanentes e impossibilitam outros tratamentos. Isso me preocupa um pouco, porque a gente às vezes fica de mãos atadas para poder ajudar alguém que está precisando.”
Há também o problema dos produtos novos, lançados com velocidade maior do que a ciência consegue acompanhar. “Eu só vou fazer quando realmente já tiver um estudo de segurança a longo prazo. O produto pode dar uma resposta boa, mas, a longo prazo, pode dar complicações tardias. Às vezes, sem liberação da Anvisa, muitas vezes.” A postura da clínica é firme: a segurança sempre vem antes do resultado. “Não é porque um produto está mostrando ter resultados bons, um produto lançado recentemente, que vai ser um procedimento seguro.”
Para ilustrar o que pode acontecer quando essa cautela é ignorada, Maria Constanza menciona um caso emblemático que ganhou repercussão na Argentina: uma clínica frequentada por artistas famosos que utilizava um produto equivalente a concreto para procedimentos corporais. “Artistas argentinos famosíssimos foram nessa clínica e vêm ao jornal falando que estão contando seus dias de vida, porque é um produto que você não tira completamente do seu corpo. Ele mata. As pessoas perderam totalmente a noção do que realmente vale.”
Quando o médico precisa dizer não
Há situações em que a postura mais ética é recusar um procedimento, mesmo que tecnicamente ele fosse possível de realizar. Ana Carolina fala sobre isso com a naturalidade de quem já viveu esse momento muitas vezes.
“O primeiro é não fazer danos. A gente tem esse princípio na medicina.” Existe uma condição chamada transtorno dismórfico corporal, em que o paciente enxerga um defeito que objetivamente não existe. “Na área da estética, existem muitos pacientes que têm essa condição médica. E você, sendo ético, sendo médico, não vai ser difícil, no fundo, dizer que não, porque você sabe que está fazendo um bem para o paciente.”
A conversa durante a consulta é, para ela, a ferramenta mais importante. “Gastar tempo conversando é muito importante, porque, nessa conversa, a gente consegue identificar quando realmente é algo patológico, algo de doença, ou quando é algo comportamental.” Em alguns casos, ela mostra para a paciente, com fotos e medições, que as proporções do rosto estão equilibradas, que não há necessidade de intervenção. “O paciente fala: nossa, tudo bem, eu entendi. E você sabe que uma pessoa que entendeu mesmo vai fazer outros tratamentos, ou vai fazer só um acompanhamento comigo de saúde, e ela para de falar daquilo.”
Houve um caso em que foi necessário envolver a família. “Foi necessário, de alguma forma, trazer a família junto para essa questão, porque ia ser necessário realmente fazer um acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. É muito fácil falar sim, muito fácil mesmo. Um procedimento estético é muito tentador para o ‘profissional’ que quer ganhar dinheiro a qualquer custo.”
O que a noiva precisa saber antes de marcar uma consulta
Para as noivas que estão considerando fazer um procedimento estético pela primeira vez pensando no casamento, o conselho de Ana Carolina começa antes mesmo de entrar no consultório.
“A noiva precisa se olhar no espelho, se olhar nas fotos, e se perguntar se o que ela já tem de hoje e sozinha está bom para ela, e tentar entender o que incomoda realmente, o que não incomoda. Como que ela se vê como pessoa, como que ela vê a própria imagem, e trabalhar o que incomoda ela e não aos outros, não pensando no âmbito de casamento, como que vai estar lá no casamento. Mas pensando como pessoa hoje, eu, sem ser noiva, o que eu sinto, o que eu não gosto, o que me deixa um pouco insegura, que me deixa insegura e não aos outros. E eu falo isso para todas as minhas pacientes.”
O segundo passo é procurar um dermatologista com antecedência. “Muitas vezes fica muito em cima da hora chegar dois, três meses antes em uma consulta dermatológica para conseguir atender os resultados que a noiva quer.” Com tempo suficiente, é possível planejar tratamentos que vão muito além do injetável. “Às vezes são coisas tão pequenas como hidratar a pele, como melhorar uma mancha em particular. E é super tranquilo. Mas tem outras situações particulares que precisam de mais tempo e nem sempre são tratamentos injetáveis.”
Inácio acrescenta, com a perspectiva de quem, como homem, também passou a enxergar o assunto de forma diferente ao se tornar noivo: “Eu, como homem, não me importo muito com os procedimentos estéticos, mas ver as fotografias desse dia é muito lindo, e lógico estar com o rosto um pouquinho mais cuidado. Uma barba bem feita. Faz diferença na hora de ver essas fotografias.”
A mensagem final de Ana Carolina é sobre organização e autoconhecimento. “Se organizar é muito importante. O casamento é um momento extremamente especial. Toda uma construção para o dia do casamento. Existe uma escolha das flores, existe uma escolha das músicas, das fotografias, dos vídeos. Enquanto isso, você vai construindo esse momento tão especial. E a autoestima, a pele também é um ponto importante que a gente precisa de um tempo para se organizar.”
A pressão do entorno e o direito de ser você mesma
Um dos temas que atravessou toda a conversa foi o peso das opiniões externas sobre as escolhas da noiva, sejam elas estéticas ou não. Maria Constanza, que conduz a entrevista e é ela mesma noiva e paciente da clínica, trouxe o assunto com uma experiência própria: “Outro dia, uma noiva — e eu entendo que foi na melhor das intenções — me disse: ‘Ai, Maria, você vai iluminar seu cabelo, né? Precisa iluminar, já que você quer um penteado de cabelo solto.’ Falei: ‘Não, eu gosto do meu cabelo assim como ele é.’”
Ana Carolina reconhece o padrão. “Nós somos bombardeados dessa palavra de ‘tem que, precisa, deve fazer, deve ter’ o tempo todo. Isso pode virar um gatilho enorme para decisões precipitadas ou, às vezes, baseadas numa insegurança que veio do entorno e nunca foi sua necessariamente.”
Maria Constanza lembra de uma noiva que queria um penteado semipreso, mas estava sendo pressionada por todos ao redor para usar coque. “Essa menina estava numa angústia e ela não era uma pessoa muito firme para falar a sua opinião. Ela estava se deixando influenciar muito pelas sugestões externas. E aí teve uma hora que eu precisei segurar ela e falar: ‘Fulana, é você que vai se ver nas fotos. Você se odeia de coque, você mesma me disse isso. Por que não fazer o semipreso que você tanto quer?’”
A noiva casou com o semipreso, mas foi difícil até o dia do casamento ouvir que deveria ter feito diferente. “Noivas têm que ter uma resistência muito grande, emocional, para não só dizer não ou dizer o que elas querem, mas bancar essas opiniões.”
Cuidar da pele além da estética: o que ninguém te conta
Quando a conversa se volta para saúde, e não apenas para beleza, Ana Carolina assume um tom ainda mais direto. O câncer de pele é o mais frequente no mundo, e, no Brasil, especialmente na região Sul, os índices são ainda mais altos.
“O essencial é a fotoproteção. O câncer de pele se associa diretamente com a exposição solar. Então, a fotoproteção é evitar os horários de sol mais intenso, usar o protetor solar diariamente quando for se expor ao sol, fazer uso de chapéu, é realmente importante e é o que funciona.”
Além disso, ela recomenda uma consulta anual com dermatologista para o check-up de pintas e atenção a sinais específicos que podem surgir no dia a dia.
“Uma pinta que começa a crescer, que muda ao longo do tempo, que forma ferida, que tem várias cores, uma pinta que ficou mais escura, diferente do resto. Seria importante consultar precocemente.”
Ela alerta também para o hábito, cada vez mais comum, de seguir orientações de tratamento vindas das redes sociais. “Eu vejo um paciente chegando por meses, anos fazendo um tratamento que a amiga passou, que viu no TikTok. E aí fala: ‘Ah, não tem mais jeito, porque eu já fiz de tudo.’ Ao analisar esse ‘tudo’, era tudo que o TikTok passou.”
A mensagem, no fundo, é simples: procurar o médico antes de tentar resolver sozinha.
“Não é porque é uma escaminha, não é porque é uma espinha que não é importante, que não é saúde também. Então tem que procurar.”
O que é beleza, afinal?
Para encerrar, a pergunta mais filosófica da entrevista: o que é beleza, para quem dedica a vida a estudá-la e praticá-la?
Ana Carolina responde sem hesitar, mas com a delicadeza de quem sabe que a resposta não é simples.
“Beleza é o que faz você sentir uma emoção no que você vê. E aí, o que te emociona, que visualmente te traz uma emoção positiva, é isso.”
Mas ela vai além: é uma emoção individual.
“O que traz emoção positiva para mim, ao meu ver, é diferente do que outra pessoa sente também ao ver a mesma coisa. Tem padrões de beleza, mas a beleza real continua sendo história. Depende das tuas experiências, depende do momento.”
E é justamente por isso que a percepção de beleza pode ser distorcida por um momento emocional difícil.
“Emoções estão afloradas e intensificadas no noivado. Elas estão sendo manipuladas constantemente, e aí a gente tem que tentar trabalhar essas emoções para que você não venha a ter uma percepção errônea de beleza, o que acaba se causando para si próprio algum malefício por conta dessa sua percepção de beleza.”
O exemplo mais extremo é o da paciente em depressão que chega ao consultório dizendo que está horrorosa, quando objetivamente está linda.
“A emoção que ela sente ao se ver no espelho é uma emoção que está deturpada por conta do momento emocional dela, dessa situação. Então eu não posso chegar e indicar um procedimento para cada queixa que ela me traz, porque senão eu vou estar afundando ainda mais ela e causando um mal para ela.”
Foi nesse momento que Maria Constanza encerrou com uma observação que arrancou sorrisos de todos: Inácio havia dito que a beleza é o que evoca emoções e que, para ele, Ana Carolina é sempre bela, mesmo nos momentos em que ela diz estar horrível.
“Que bom que é com ele que você vai casar. Não é isso que a gente quer para a vida? Um parceiro, uma parceira, que nos ame em qualquer momento.”
Ana Carolina completou, com leveza: “Que a gente evoca emoções.”
E a entrevistadora riu: “Isso aí é frase para votos, gente. É frase para votos.”

































