Dra. Cecília Ruiz: Quando a técnica encontra o olhar
HEALTH COVER EDITION - SEPTEMBER 2026 ISSUE

A excelência de um cirurgião não se constrói apenas pela quantidade de técnicas que domina, mas pela qualidade das escolhas que aprende a fazer ao longo do tempo. No caso de Dra. Cecília Ruiz, esse olhar foi sendo formado entre diferentes campos da medicina, experiências de reconstrução e um percurso contínuo de aperfeiçoamento.

Formada em Medicina pela Faculdade Técnico-Científica Souza Marques, no Rio de Janeiro, Cecília passou pela Cirurgia Geral na UFRJ antes de seguir para a Cirurgia Plástica no INCA. Vieram depois experiências em reconstrução mamária e de cabeça e pescoço, complementações na USP e no A.C. Camargo Cancer Center e aperfeiçoamentos em diferentes técnicas da cirurgia plástica. É uma formação extensa, mas o que chama atenção não é apenas a quantidade de etapas. É a maneira como elas foram construindo um olhar cada vez mais atento sobre o corpo e sobre a responsabilidade de intervir nele.

Hoje, as cirurgias das mamas ocupam um lugar central em sua prática. Mastopexia, mamoplastia redutora, mamoplastia híbrida, técnicas de cicatriz reduzida e estratégias de recuperação rápida fazem parte de um repertório amplo, desenvolvido para atender diferentes anatomias e necessidades, sem transformar uma técnica em resposta automática.
Talvez esteja aí uma das marcas mais interessantes de seu trabalho. Conhecer muitas possibilidades não significa querer utilizá-las todas. Ao contrário: experiência também é reconhecer quando uma técnica é adequada, quando outra pode oferecer um resultado melhor e quando fazer menos pode ser a decisão mais cuidadosa.
A cirurgia plástica atravessa um momento de grande evolução. Tecnologias, técnicas e estratégias de recuperação ampliam continuamente as possibilidades da especialidade. Ao mesmo tempo, as redes sociais modificaram a maneira como muitas mulheres enxergam seus próprios corpos e chegam ao consultório, trazendo referências, expectativas e, algumas vezes, padrões difíceis de sustentar fora das telas.

É nesse contexto que o trabalho de um cirurgião ganha uma responsabilidade ainda maior. Não basta saber como operar. É preciso compreender quem está diante do médico, o que ela deseja, o que é possível oferecer e quais escolhas realmente fazem sentido para aquela pessoa.
É sobre esse olhar que conversamos com Dra. Cecília Ruiz. Sobre uma formação construída com profundidade, a experiência dedicada às cirurgias das mamas, a evolução da especialidade e tudo aquilo que o tempo de prática ensinou sobre beleza, escolha e cuidado.

1. Em que momento você entendeu que a cirurgia plástica seria o campo em que queria construir sua atuação?
A cirurgia plástica me conquistou justamente por reunir duas dimensões da medicina pelas quais sempre fui fascinada: a precisão técnica e a capacidade de reconstruir.
Minha formação em Cirurgia Geral foi fundamental para construir uma base sólida como cirurgiã. Depois, as experiências com cirurgia plástica, reconstrução mamária e reconstrução de cabeça e pescoço ampliaram muito a minha percepção sobre o que significa operar alguém. Quando você participa de uma reconstrução, entende que não está tratando apenas uma estrutura anatômica.
Existe uma pessoa, uma história e, muitas vezes, um processo de retomada da própria identidade por trás daquele procedimento.
Acho que foi nesse caminho que compreendi que a cirurgia plástica seria a área na qual eu gostaria de construir minha vida profissional.
Cada etapa da minha formação acrescentou algo ao meu olhar.
Hoje, quando entro em uma sala cirúrgica, carrego comigo não apenas as técnicas que aprendi, mas também a consciência de que cada decisão tem impacto na forma como aquela paciente irá se reconhecer depois.
Para mim, operar nunca foi simplesmente modificar uma parte do corpo. É unir ciência, técnica, proporção e sensibilidade para alcançar um resultado que faça sentido para aquela pessoa.
2. O que a prática ensinou a você sobre anatomia, proporção e individualidade nas cirurgias das mamas?
Quanto mais você opera mamas, mais percebe que não existe uma mama igual à outra, e isso muda completamente a maneira de planejar uma cirurgia.
Existem diferenças na anatomia, na qualidade da pele, na quantidade e distribuição do tecido mamário, na posição das mamas, no tórax, nas assimetrias e, principalmente, naquilo que cada mulher considera bonito e deseja preservar em si mesma.
Por isso, acredito cada vez menos em uma técnica aplicada de forma padronizada. A técnica precisa servir à paciente, e não o contrário.
Ao longo dos anos, desenvolvi um olhar muito atento para proporção e naturalidade. Não procuro criar uma “mama perfeita” segundo um padrão. Procuro entender qual resultado é harmônico para aquele corpo, considerando anatomia, segurança, desejo e também como esse resultado deverá se comportar ao longo do tempo.
Talvez uma das maiores evoluções de um cirurgião seja justamente essa: no início da carreira, você se preocupa muito em dominar técnicas. Com a experiência, entende que a verdadeira sofisticação está em saber qual técnica escolher, quanto fazer e, muitas vezes, quando fazer menos.

3. Em um cenário em que a cirurgia plástica avança rapidamente, enquanto as redes sociais também passam a influenciar cada vez mais a percepção sobre beleza, como você decide o que realmente merece ser incorporado à sua prática?
A cirurgia plástica evoluiu extraordinariamente. Hoje temos tecnologias, novos conceitos cirúrgicos, estratégias de recuperação e recursos que nos permitem realizar tratamentos cada vez mais individualizados.
Eu gosto de inovação e acredito que o cirurgião precisa acompanhar essa evolução. Mas inovação, para mim, precisa vir acompanhada de critério.
Nem tudo o que é novo representa necessariamente uma evolução. Antes de incorporar uma técnica ou tecnologia à minha prática, procuro entender sua segurança, indicação, evidência científica e, principalmente, se ela realmente acrescenta algum benefício ao resultado da paciente.
Ao mesmo tempo, vivemos uma questão muito particular da nossa época: muitas pacientes chegam ao consultório com referências construídas pelas redes sociais. São imagens editadas, filtros, ângulos específicos e corpos que acabam se repetindo até criar a sensação de que existe um único padrão de beleza desejável.
Uma parte muito importante da consulta é justamente desconstruir essa ideia.
Eu gosto de ouvir o que a paciente deseja, mas também procuro ajudá-la a entender sua própria anatomia e aquilo que é possível, e bonito, para o corpo dela.
A melhor cirurgia, na minha visão, não é aquela que faz uma mulher se parecer com outra. É aquela em que o resultado parece pertencer a ela.
4. Em que momento uma mudança deixa de ser uma escolha sobre o próprio corpo e passa a ser uma tentativa de corresponder ao olhar dos outros? E o que cabe ao cirurgião quando percebe que essa fronteira foi ultrapassada?
Essa talvez seja uma das maiores responsabilidades de um cirurgião plástico.
Existe uma diferença importante entre uma mulher que apresenta uma queixa consistente, que a acompanha há algum tempo e que deseja uma mudança por si mesma, e alguém que está tentando alcançar um padrão externo ou acredita que uma cirurgia será capaz de resolver questões que ultrapassam o corpo.
E essa diferença aparece principalmente quando sabemos escutar.
Por isso, considero a consulta tão importante quanto a cirurgia. É nesse momento que tento compreender não apenas o que a paciente quer mudar, mas por que aquilo é importante para ela e o que ela espera sentir depois.
Existem situações em que a melhor decisão médica é não operar. E dizer “não” também é cuidar.
O cirurgião não pode ser apenas alguém capaz de executar tecnicamente um desejo. Existe uma responsabilidade médica em avaliar limites, expectativas, riscos e motivações.
A cirurgia plástica pode ter um impacto muito bonito sobre autoestima e autoconfiança, mas ela não deve ser apresentada como solução para todas as inseguranças. Nosso papel também é reconhecer essa fronteira.

5. Depois de tantos anos entre formação, prática e aperfeiçoamento, o que mudou na sua compreensão sobre beleza? E, olhando para o futuro da cirurgia plástica, o que você acredita que nenhuma tecnologia será capaz de substituir?
Minha percepção de beleza ficou muito menos rígida ao longo dos anos.
Quanto mais pessoas você conhece e quanto mais corpos você opera, mais percebe que beleza não está na perfeição ou na ausência de assimetrias. Ela está muito mais relacionada à harmonia, à proporção e à maneira como uma pessoa se reconhece no próprio corpo.
Hoje valorizo muito mais a individualidade.
A tecnologia certamente continuará transformando a cirurgia plástica. Teremos recursos mais precisos, procedimentos mais personalizados e, provavelmente, recuperações cada vez melhores. Acho isso extraordinário.
Mas existe algo que nenhuma tecnologia substitui: o olhar médico.
A capacidade de ouvir uma paciente, compreender o que ela não consegue necessariamente colocar em palavras, perceber seus limites, interpretar sua anatomia e tomar decisões responsáveis continuará sendo humana.
No final, uma cirurgia acontece no centro de uma relação de confiança. A paciente entrega ao cirurgião algo extremamente íntimo: seu corpo e uma expectativa de transformação. Essa confiança exige conhecimento técnico, mas também ética, sensibilidade e responsabilidade.

6. Depois de tudo o que a medicina, a cirurgia e o contato diário com tantas mulheres lhe ensinaram, existe algo que você sente que ainda precisa dizer? Se pudesse usar a sua voz para falar ao mundo sem filtros, sem protocolos e sem precisar corresponder a nenhuma expectativa, o que gostaria que as pessoas ouvissem de você?
Talvez eu dissesse que não precisamos passar a vida tentando caber em versões de nós mesmas criadas pelo olhar dos outros.
Vivemos em uma época em que somos constantemente convidados a nos comparar. Existe sempre um corpo, uma carreira, uma maternidade, uma vida ou uma imagem aparentemente perfeita diante de nós. E é muito fácil transformar essa comparação em cobrança.
Trabalhar diariamente com a imagem e com o corpo humano me ensinou justamente o contrário: não existe perfeição.
Existem histórias, proporções, cicatrizes, assimetrias, fases da vida e características que fazem cada pessoa ser única.
A cirurgia plástica pode transformar um corpo. Eu vejo isso todos os dias. Mas acredito que a transformação mais bonita acontece quando aquela mudança não tenta criar uma nova pessoa, apenas permite que alguém volte a se reconhecer.
Se existe algo que eu gostaria que as mulheres ouvissem de mim é: cuidem de si mesmas, façam escolhas por vocês e não tenham medo de desejar mudanças. Mas também não permitam que o mundo determine o que vocês precisam mudar para serem suficientes.
Para mim, beleza nunca deveria significar apagar quem você é.
Deveria significar revelar, com mais liberdade e confiança.


































