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Kelly Key and Family

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Musa da Unidos de Vila Maria, Ísis Lyon fala sobre autoestima da mulher negra

“Por nunca me sentir representada, resolvi virar representante”


Crédito Waldir Evora

Ísis Lyon aponta a importância da representatividade negra, especialmente para as crianças desenvolverem autoaceitação

Escolhida pelo presidente da Unidos de Vila Maria para ser a musa da escola de samba, a influencer, residente de medicina e filantropa Ísis Lyon tem tudo para brilhar na avenida em 2022. Se hoje Ísis ostenta carisma, beleza e confiança, esse é um resultado de sua busca constante pela autoaceitação.


Como mulher negra, a falta de representatividade na mídia afetou a construção de sua identidade desde cedo.

“Por muito tempo, busquei aprovação das pessoas. Até que descobri que aceitação é uma coisa que tem que vir de dentro. Por nunca me sentir representada, resolvi virar representante. Atualmente, procuro inspirar outras mulheres a serem elas mesmas. Isso é uma forma de liberdade”, afirma.

Na infância, ela não se reconhecia nos filmes, programas de TV, desenhos, brinquedos. São detalhes que parecem bobos, mas que podem ser determinantes para a autoestima da criança negra, de acordo com Ísis.


“Os padrões de beleza são totalmente nocivos para as crianças negras, pois elas crescem sem uma referência. Eu queria ser a Cinderela, queria ser a Branca de Neve quando era menor. Você não encontra representatividade em uma loja de brinquedos, com Barbies negras, super-heróis negros. As crianças já veem a boneca branca como linda e boazinha e a boneca negra como feia e má. Por quê? Elas nascem com ódio delas mesmas? Claro que não. A sociedade é quem cria este ódio. A gente cresce se sentindo a última na pirâmide de importância”, descreve.


“Você se sentir representado é você pertencer à sociedade. É muito cruel assistir à novela e o papel da mulher negra sempre ser de serviçal, bandido ou com apelo sexual. Imagina uma atriz negra que estuda a vida toda e muitas vezes mais que uma atriz branca e reduzirem-na sempre a estes papéis?”, questiona.


O bullying na escola, que trazia consigo piadas de cunho racista, também fizeram parte de sua vida. Para ela, foram marcas a serem superadas dia após dia. “Muito dificilmente você vai encontrar alguma pessoa preta que não tenha sido vítima. Apelidos eu acumulo milhões. Se você não tiver uma força extraordinária, não consegue passar por isso”, desabafa.

Aos poucos, a musa foi conhecendo personalidades famosas que a fizeram se sentir bem em ser diferente. Cantoras como Whitney Houston e Toni Braxton, e modelos como a Naomi Campbell foram muito influentes na sua adolescência.

“Nunca pareci com qualquer outra garota, então demorei um pouco para ficar bem com isso. Em ser diferente. Mas ser diferente é bom. Hoje em dia, quero que essa realidade seja diferente para meus filhos e que eles se sintam bem em ser quem são, tenham orgulho de nossas raízes. Educar uma criança preta com essa base é lutar contra esses padrões. É por causa disso que o movimento ao qual pertenço é uma luta. Porque estamos lutando pelas nossas vidas”, destaca a influencer.


Para que essa situação mude, Ísis acredita que a sociedade como um todo precisa fazer a sua parte – especialmente as pessoas brancas, que, na sua visão, também devem pegar essa responsabilidade para si.


“O branco de hoje não é responsável pelo que aconteceu no passado, mas todos nós temos o papel de criar esse equilíbrio. ⁠Sabe, alguns brancos só esperam a chance de serem parabenizados por não serem cruéis conosco. Como se devêssemos agradecer por eles terem tido a gentileza de nos tratarem como seres humanos. Você espera que um cachorro lhe dê uma medalha por não chutá-lo um dia?”, defende. “A importância da representatividade é para avançar com a ideia de que fazemos parte e temos que ter nosso espaço proporcional ao número que representamos.”

Ela também deixa uma mensagem para todas as meninas negras que ainda não lidam bem com seus corpos e aparências.

“Sei que nós, mulheres negras, sempre passamos por episódios devastadores. Mas o que a lagarta chama de fim do mundo, o sábio chama de borboleta. O que fazemos de melhor é criar oportunidades a partir das piores situações. Agora, eu vejo que minha voz faz a diferença, mas eu fiquei quieta por 35 anos. Cada pessoa tem uma história para contar, um episódio de superação. Valorize todo o seu caminho até aqui”, aconselha.

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