Além do diagnóstico: como a Dra. And Yara defende uma medicina que antecipa o futuro da saúde
- Evely Oliveira

- há 50 minutos
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'HEALTH' EDITION COVER - JULY 2026 ISSUE

Durante décadas, a medicina foi reconhecida por sua capacidade de tratar doenças. A evolução da ciência ampliou diagnósticos, refinou tratamentos e elevou a expectativa de vida da população. Hoje, porém, uma nova perspectiva começa a transformar essa lógica. A pergunta que orienta parte da medicina contemporânea já não é apenas como tratar melhor, mas como impedir que a doença aconteça.
É nesse contexto que a atuação da Dra. And Yara Particelli Gelmini encontra seu propósito.

Médica há mais de quinze anos, ela iniciou sua carreira na Radiologia, especialidade que lhe proporcionou um olhar preciso sobre o diagnóstico e a investigação das doenças. Durante esse período, consolidou uma carreira pautada pela análise criteriosa dos exames e pela busca de respostas para condições já estabelecidas. Com o tempo, no entanto, passou a questionar se o maior impacto da medicina deveria acontecer apenas quando a doença já estivesse instalada.
Essa inquietação não surgiu apenas da evolução científica. Também nasceu de uma transformação pessoal que redefiniu sua maneira de compreender a saúde, o cuidado e o próprio papel do médico. Mais do que mudar de especialidade, ela decidiu reconstruir sua forma de exercer a medicina.
Foi esse processo que a conduziu à Nutrologia, à Medicina Funcional Integrativa e, mais recentemente, à especialização internacional em Medicina da Longevidade, área que reúne alguns dos avanços mais relevantes da ciência ao integrar prevenção, tecnologia e personalização do cuidado.
Hoje, sua prática está fundamentada na Medicina de Precisão, abordagem que considera fatores como genética, metabolismo, perfil hormonal, nutrição, estilo de vida e ambiente para compreender cada paciente de forma individual. Em vez de olhar apenas para a doença, o foco passa a ser a identificação precoce de riscos e a construção de estratégias capazes de preservar saúde, autonomia e qualidade de vida ao longo dos anos.

Essa filosofia ganha especial relevância na saúde da mulher, uma das principais áreas de atuação da Dra. And Yara. Durante fases como o climatério e a menopausa, ela propõe uma abordagem baseada em evidências científicas, respeitando a individualidade biológica de cada paciente para promover equilíbrio hormonal, bem-estar e longevidade.
Outro importante eixo de seu trabalho é o tratamento do lipedema, condição crônica que afeta predominantemente mulheres e que ainda permanece subdiagnosticada em muitos casos. A partir de uma abordagem multidisciplinar, que integra controle da inflamação, equilíbrio metabólico, nutrição, exercício físico, terapias regenerativas e acompanhamento contínuo, seu objetivo é devolver funcionalidade, qualidade de vida e autoestima, mostrando que o cuidado vai muito além do controle dos sintomas.
Sua atuação também contempla saúde metabólica, emagrecimento, reposição hormonal quando indicada e estratégias voltadas à prevenção de doenças crônicas. Embora essas áreas pareçam distintas, todas partem da mesma convicção: não é possível compreender a saúde analisando apenas um órgão, um exame ou um sintoma. Cada organismo é resultado da interação entre fatores biológicos, hormonais, metabólicos, emocionais e ambientais que tornam cada paciente único.

Essa maneira de exercer a medicina acompanha um movimento que vem redesenhando o futuro da saúde. Ferramentas como inteligência artificial, testes genéticos, biomarcadores e medicina de precisão ampliam as possibilidades de investigação e prevenção, mas também reforçam um aspecto essencial. Quanto mais a tecnologia evolui, maior se torna o valor de uma medicina capaz de interpretar esses dados sem perder de vista a singularidade de quem está diante do consultório.
Ao longo de sua carreira, a Dra. And Yara escolheu ocupar exatamente esse ponto de encontro entre ciência, inovação e cuidado humanizado. Seu trabalho reflete uma geração de médicos que compreende que longevidade não significa apenas acrescentar anos à vida, mas garantir que esses anos sejam vividos com autonomia, vitalidade e qualidade.
Talvez essa seja a transformação mais profunda da medicina contemporânea.

Durante muito tempo, acreditou-se que o sucesso de um médico era medido pela capacidade de diagnosticar e tratar doenças. Hoje, uma nova perspectiva começa a ganhar força. O verdadeiro avanço talvez esteja em construir uma medicina capaz de preservar a saúde antes que ela precise ser recuperada.
Porque, no fim, o futuro da medicina pode não estar na forma como aprendemos a combater as doenças, mas na capacidade de fazer com que elas nunca tenham a oportunidade de mudar a história de uma vida.
A seguir, em uma conversa exclusiva com a Hooks Magazine, a Dra. And Yara Particelli Gelmini compartilha sua visão sobre a transformação da medicina, o verdadeiro significado da longevidade, o impacto das novas tecnologias na prática clínica e por que acredita que o futuro da saúde será definido muito antes do primeiro diagnóstico.

Durante décadas, o sucesso da medicina foi medido pela capacidade de tratar doenças. Hoje, prevenção e longevidade ocupam o centro do debate sobre saúde. Na sua visão, estamos apenas acompanhando uma evolução científica ou vivendo uma transformação definitiva na maneira como a medicina compreende o ser humano?
Acredito que estamos vivendo uma transformação definitiva. Durante muito tempo, a medicina foi extraordinária em tratar as consequências das doenças, mas pouco se perguntava por que elas surgiam.
Hoje entendemos que saúde não é simplesmente ausência de doença. É preservar função, autonomia, cognição, massa muscular, qualidade de vida e independência durante toda a vida.
A medicina da longevidade não substitui a medicina tradicional, ela a complementa. Continuaremos tratando doenças quando elas aparecerem, mas o verdadeiro sucesso será fazer com que elas apareçam cada vez mais tarde ou, idealmente, nunca apareçam.
Pela primeira vez, temos ferramentas para compreender que cada indivíduo envelhece de maneira diferente. Genética, estilo de vida, ambiente, metabolismo e comportamento interagem de forma única. Estamos deixando de tratar diagnósticos para cuidar de pessoas.

Você costuma dizer que sua maior transformação aconteceu primeiro dentro de você e só depois se refletiu na sua prática médica. Em que momento percebeu que essa experiência deixaria de ser uma vivência pessoal para se tornar a base da filosofia que hoje orienta toda a sua carreira?
A medicina mudou para mim quando eu percebi que eu mesma precisava mudar.
Passei anos acreditando que o melhor médico era aquele que fazia o diagnóstico mais preciso. Afinal, eu era radiologista, mas eu não estava feliz. Por anos, tentei de tudo para me encaixar no cenário de conviver com doenças e em ambientes fechados, mas nada daquilo me satisfazia. Algo faltava.
Foi quando a curiosidade falou mais alto e eu fui buscar qual curso tratava o ser humano como um todo. Na época, eu já sofria com endometriose e tive um diagnóstico errôneo de depressão. Então, eu vi a medicina me chamar.
Eu precisei me enxergar por completo para sair do lugar em que estava. Precisei integrar corpo, mente, alma e espírito para poder me curar e sair daquele sofrimento. Foi nesse momento que cursei minha primeira pós-graduação em Nutrologia, há dez anos.

Viver mais deixou de ser o único objetivo e passou a significar viver com mais autonomia, energia e qualidade. Ainda assim, muitas pessoas associam esse conceito apenas à estética ou à passagem do tempo. Como você acredita que a sociedade ainda interpreta de forma limitada o verdadeiro papel da medicina preventiva e do envelhecimento saudável?
Existe uma grande confusão entre aparência e saúde.
As pessoas imaginam que medicina da longevidade significa apenas parecer mais jovem. Na realidade, o maior objetivo é continuar vivendo plenamente aos 70, 80 ou 90 anos, mantendo independência, lucidez, força física e capacidade de fazer escolhas.
O que realmente importa não é quantos anos teremos, mas como chegaremos até eles. O termo utilizado no mundo afora é healthspan.
Prevenir não significa fazer exames infinitos ou tomar dezenas de suplementos. Significa entender, da forma mais precisa possível, o que cada organismo precisa para manter suas funções preservadas ao longo das décadas.
A estética pode ser uma consequência. Mas a verdadeira longevidade é conseguir brincar com os netos, viajar, trabalhar, praticar esportes, manter a memória preservada e continuar vivendo com propósito.

Vivemos uma era em que inteligência artificial, testes genéticos e medicina de precisão avançam em uma velocidade impressionante. Nesse cenário, qual será o maior diferencial do médico do futuro: dominar as novas tecnologias ou preservar a capacidade de compreender a individualidade de cada paciente?
O médico do futuro precisará dominar ambos.
A inteligência artificial será extraordinária para organizar informações, reconhecer padrões e acelerar diagnósticos. Os testes genéticos, os dispositivos vestíveis e a medicina de precisão nos permitirão conhecer cada paciente em uma profundidade jamais imaginada.
Mas nenhuma tecnologia substitui algo essencial: a capacidade de ouvir, interpretar e compreender o ser humano, além do vínculo entre o médico e seu paciente. Eu, particularmente, não entendo o médico que não quer criar vínculos com seus pacientes. Os meus eu quero por perto, viram amigos. Médico tem que amar a vida e o ser humano.
Dois pacientes podem ter exatamente o mesmo exame e precisar de tratamentos completamente diferentes.
A tecnologia entrega dados. O médico transforma esses dados em decisões humanas.
Por isso, acredito que o grande diferencial da medicina do futuro será justamente unir ciência de ponta com empatia, experiência clínica e personalização.

Se uma pessoa de 40 anos lhe perguntasse hoje qual é a decisão mais importante para aumentar suas chances de envelhecer com saúde, qual seria a primeira orientação que você daria?
Eu diria para ela parar de esperar os sintomas aparecerem. Priorize conhecer seu corpo, sua genética, utilize tecnologias e exames avançados para isso e, claro, dê muitas risadas. O bom humor e os vínculos sociais melhoram nossa expectativa de vida.
A maioria das doenças crônicas leva anos ou até décadas para se desenvolver silenciosamente.
Aos 40 anos, ainda existe tempo suficiente para mudar completamente a trajetória do envelhecimento.
Minha orientação seria: conheça seu próprio corpo.
Faça avaliações periódicas, cuide da composição corporal, preserve sua massa muscular, durma bem, controle o estresse, pratique atividade física, mantenha uma alimentação adequada e personalize suas decisões de acordo com suas características individuais.
O maior erro é acreditar que saúde é algo que se recupera apenas quando se perde. Na verdade, ela precisa ser construída todos os dias.

Toda grande trajetória é guiada por uma convicção capaz de inspirar outras pessoas. Se esta entrevista pudesse levar apenas uma mensagem sua ao mundo, qual seria? O que você gostaria que as pessoas nunca mais esquecessem quando o assunto é saúde, prevenção e qualidade de vida ao longo dos anos?
Acredito que o maior legado que um médico pode deixar não é apenas aumentar a expectativa de vida, mas devolver às pessoas a oportunidade de viver plenamente.
Como escreveu Viktor Frankl: "Quem tem um porquê enfrenta qualquer como."
Quando entendemos que a saúde é o caminho para realizar nossos sonhos, percebemos que prevenir nunca foi sobre viver mais, mas sobre viver melhor.

































