ANDERSON MACEDO: A FOTOGRAFIA COMO ESPAÇO DE REPRESENTATIVIDADE
Celebrando 10 anos de carreira, o fotógrafo e idealizador do DESconstrução transforma a busca por uma beleza mais democrática em propósito, levando diversidade, inclusão e novas narrativas para dentro da moda
LEGACY COVER EDITION - SEPTEMBER 2026 ISSUE

Há imagens que registram um momento. E há imagens que ajudam a mudar a maneira como enxergamos o mundo. Ao completar 10 anos de carreira profissional, Anderson Macedo construiu uma trajetória que ultrapassa o exercício estético da fotografia para encontrar na imagem uma ferramenta de representatividade, autoestima e transformação.
Sua história com a fotografia começou há cerca de 13 anos, quando trabalhava como booker em uma agência de modelos e comprou sua primeira câmera. Inicialmente, fotografava polaroides dos modelos e, enquanto desenvolvia seu próprio olhar, também conhecia por dentro um mercado ainda fortemente orientado por padrões de beleza. Três anos depois, decidiu deixar a agência e investir definitivamente na carreira de fotógrafo.

Foi logo no início dessa nova fase que uma experiência social ajudaria a definir os caminhos de seu trabalho. Seu irmão mantinha um instituto que desenvolvia ações junto à população em situação de rua e precisava ampliar a visibilidade de uma iniciativa chamada Human. Anderson criou, então, o Somos Todos Um, projeto que levou artistas para editoriais de moda realizados em cenários urbanos ligados à realidade da população em situação de rua, incluindo áreas deterioradas e espaços sob pontes. As imagens foram posteriormente apresentadas em uma exposição no High Line, na Vila Madalena, em São Paulo.
A experiência despertou uma inquietação que mudaria definitivamente sua trajetória: se a fotografia poderia abrir espaço para pessoas e histórias que pouco apareciam na moda, por que essa possibilidade deveria permanecer restrita a uma única ação? Foi dessa reflexão que nasceu, há dez anos, o DESconstrução.

Criado em um momento em que Anderson identificava pouca diversidade no mercado, o projeto surgiu com a proposta de romper padrões e defender uma inversão de lógica: não são os corpos que precisam se adaptar à moda. É a moda que precisa reconhecer a diversidade dos corpos.
“Eu queria criar um projeto em que conseguisse realmente atender todos os rostos, todos os corpos e mostrar que todos podem ter essa acessibilidade dentro do mercado da moda”, explica Anderson.
Ao longo dos anos, o DESconstrução passou a reunir artistas, influenciadores, representantes da comunidade LGBTQIAPN+ e pessoas que, até então, tinham pouca ou nenhuma proximidade com revistas e produções editoriais. Entre os nomes que já passaram pelo trabalho de Anderson estão Henrique Fogaça, Sheila Mello, Rodrigo Mussi, Cariúcha e Marcos Pitombo.
A proposta ganhou força em torno de um conceito que se tornou central em sua trajetória: a beleza democrática. Para Anderson, trata-se de ampliar os espaços de representação e mostrar que diferentes corpos, identidades e histórias também pertencem à moda e à arte.
“Estamos há dez anos com o DESconstrução pregando a beleza democrática e mostrando que todos estão na moda, que a arte está em todos.”

Mais recentemente, essa essência ganhou um novo significado quando o projeto chegou a oito mulheres em situação de vulnerabilidade social, em uma ação realizada durante o mês das mulheres. A iniciativa proporcionou às participantes uma experiência ligada à fotografia, à moda, à beleza e à produção de imagem. Para Anderson, aquele encontro representou a concretização de uma ideia que acompanha o DESconstrução desde seu nascimento: fazer com que esse universo alcance também quem historicamente esteve distante dele.
Foi justamente essa experiência que fez Anderson perceber que o projeto havia deixado de ser apenas um trabalho autoral e se tornado um propósito.
“No ensaio com mulheres em situação de vulnerabilidade social, em parceria com a Hooks Magazine e a Prefeitura de São Paulo. Neste ensaio e nesta troca, tive a certeza de estar no caminho certo e de ter encontrado um lindo propósito na carreira e no projeto.”
Ao longo de uma década, Anderson também ampliou sua presença profissional no mercado da moda. Seu trabalho passou por campanhas, lookbooks, e-commerce e diferentes produções do segmento. Há mais de seis anos, acompanha os bastidores de edições da São Paulo Fashion Week e desenvolve trabalhos relacionados às marcas participantes.

A fotografia também abriu caminhos internacionais. Milão, Paris e Roma passaram a fazer parte de sua trajetória profissional, em experiências que reuniram moda, fotografia, marcas e clientes.
“Essa profissão me deu oportunidades de ir para fora do país fazendo o que eu mais amo, que é fotografar, e também de levar a profissão para uma dimensão internacional. Tive a oportunidade de ir para Milão, Paris e Roma, fazendo fashion trips com marcas e clientes envolvidos. Isso é muito bacana.”
Mais do que conhecer novos mercados, essas experiências ampliaram sua compreensão sobre a própria diversidade. “A forma como a moda se modifica e se molda em cada lugar e em cada cultura. Essa versatilidade social me fez entender que existem diversas formas de olhar para a arte em si. Em cada cultura, ela é enaltecida e encanta de formas distintas, e esse é o poder da beleza democrática.”
Sua trajetória profissional também guarda uma mudança de carreira pouco previsível para quem hoje acompanha seu trabalho na moda. Antes da fotografia, Anderson Macedo foi policial militar e atuou durante três anos e meio como policial rodoviário estadual. A experiência, embora distante dos estúdios, editoriais e passarelas que posteriormente fariam parte de sua rotina, permanece como uma referência importante em sua formação.
“A PM me moldou em termos de disciplina e de estar mais atento aos detalhes em tudo. Já a agência me ensinou como funciona o mercado da moda e como administrar essa venda — imagem, beleza e fashion.”

A disciplina adquirida nessas experiências acompanha Anderson até hoje, desde a ética profissional até as horas dedicadas à edição de imagens, sempre com afinco, determinação e compromisso com a qualidade da entrega.
Ao completar uma década de carreira, Anderson celebra não apenas os trabalhos realizados, mas principalmente as conexões construídas pela fotografia e a possibilidade de fazer seu propósito alcançar universos cada vez mais distintos.
“Sou muito feliz e muito grato. Tive pessoas incríveis passando pela minha caminhada, trocas muito importantes e conexões que me ajudaram a chegar até aqui.”
Em uma edição Legacy, olhar para o futuro também significa pensar naquilo que desejamos deixar para trás. Para Anderson, o legado que gostaria de construir está diretamente ligado à representatividade. Ele deseja que seu trabalho continue criando possibilidades para que pessoas que ainda não se sentem representadas pela moda possam se reconhecer dentro dela.
“Espero que as pessoas, ao verem esses trabalhos, se sintam representadas no meio da moda e elevem a autoestima, levando para o mundo mais amor e empatia.”

Sua visão parte da ideia de que a beleza não precisa seguir um único padrão para existir. “Que a minoria social entenda que o belo está na diferença e que somos seres únicos, cada um com sua história e vivência. A autenticidade é o que nos faz brilhar de forma única.”
Talvez seja justamente aí que esteja o significado mais profundo de uma carreira de dez anos. Não apenas fotografar pessoas, mas criar espaços para que elas sejam vistas. Não apenas produzir imagens, mas questionar quem aparece nelas. Não apenas acompanhar a transformação da moda, mas contribuir para ampliar suas possibilidades.
Anderson Macedo chega à Legacy Cover da Hooks Magazine celebrando uma década de carreira e reafirmando uma ideia que acompanha seu trabalho desde o início: a beleza pode estar em todos os lugares, desde que exista espaço para que ela seja reconhecida.

Porque, para ele, a fotografia não é apenas sobre aquilo que vemos através das lentes. É também sobre quem finalmente passa a se enxergar dentro da imagem.
Confira entrevista completa:
1. Você completa 10 anos de carreira em um momento em que a diversidade ganhou mais espaço na moda, mas ainda existem barreiras. Olhando para essa década, o que mudou de verdade e o que ainda precisa ser desconstruído?
Nossa sociedade é estruturada com padrões e estigmas de beleza, patriarcado e questões étnicas. Ainda precisaremos de muito tempo para conseguirmos chegar a uma democracia existencial. Com o avanço tecnológico, o que antes era minoria ganhou força e voz, mas eu acredito que ainda há muitas camadas que precisamos combater e continuar debatendo, como a homofobia, o racismo, entre outras.

2. O DESconstrução nasceu da vontade de tornar a beleza mais democrática e, ao longo dos anos, chegou a diferentes corpos, identidades e histórias. Qual foi o momento em que você percebeu que o projeto havia deixado de ser apenas um trabalho autoral e se tornado um propósito?
No ensaio com mulheres em situação de vulnerabilidade social, em parceria com a Hooks Magazine e a Prefeitura de São Paulo. Neste ensaio e nesta troca, tive a certeza de estar no caminho certo e de ter encontrado um lindo propósito na carreira e no projeto.

3. Você já levou o seu olhar para diferentes universos — da São Paulo Fashion Week a Milão, Paris e Roma. O que essas experiências internacionais ensinaram sobre a forma como a moda enxerga diversidade e representatividade?
A forma como a moda se modifica e se molda em cada lugar e em cada cultura. Essa versatilidade social me fez entender que existem diversas formas de olhar para a arte em si, como algo que mais conforma o ser humano. Em cada cultura, ela é enaltecida e encanta de formas distintas, e esse é o poder da beleza democrática.

4. Antes da fotografia, você foi policial militar e trabalhou como booker em uma agência de modelos. São experiências muito diferentes, mas ambas lidam diretamente com pessoas. O que essas duas fases da sua vida deixaram no fotógrafo e no profissional que você se tornou?
A PM me moldou em termos de disciplina e de estar mais atento aos detalhes em tudo. Já a agência me ensinou como funciona o mercado da moda e como administrar essa venda — imagem, beleza e fashion. O metodismo e a disciplina rígida que precisei ter nessas duas áreas, eu carrego hoje desde o âmbito da ética profissional até as horas editando imagens com afinco e determinação, sempre buscando uma entrega com qualidade.

5. Em uma edição Legacy, falar sobre futuro também significa falar sobre o que queremos deixar para trás. Quando você olha para os próximos 10 anos, que legado gostaria que o seu trabalho e o DESconstrução deixassem para a moda e para as pessoas que ainda não se sentem representadas por ela?
Justamente essa representatividade. Espero que as pessoas, ao verem esses trabalhos, se sintam representadas no meio da moda e elevem a autoestima, levando para o mundo mais amor e empatia. Que a minoria social entenda que o belo está na diferença e que somos seres únicos, cada um com sua história e vivência. A autenticidade é o que nos faz brilhar de forma única.

Anderson Macedo and Caiúcha


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