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OLIVER: entre o real e a imagem

há 2 horas
6 min de leitura

Antes da câmera, vieram as pessoas.

Antes do audiovisual, a moda. Antes da imagem, a observação.


OLIVER: entre o real e a imagem
Photos: Anderson Macedo

A relação de Oliver com o audiovisual não começou quando decidiu transformar a câmera em profissão. Começou muito antes, nos anos dedicados ao varejo, primeiro como vendedor, depois como gerente de loja. Foi ali, no contato diário com diferentes pessoas, comportamentos e escolhas, que desenvolveu uma atenção particular ao que acontece antes de uma imagem existir.


A maneira como alguém se posiciona. O que escolhe vestir. Um gesto. Uma expressão. A forma como um ambiente é organizado.

Detalhes que, isoladamente, parecem pequenos, mas que juntos constroem uma percepção.


É também daí que vem sua relação com a moda. Mais do que uma referência estética, ela se tornou uma espécie de escola de percepção. No audiovisual, esse repertório encontrou outra forma de existir.


Quando decidiu fazer do audiovisual seu caminho profissional, em 2025, Oliver não estava começando do zero. Levava consigo anos de experiência observando pessoas e entendendo como diferentes elementos podem construir uma experiência. A câmera apenas abriu uma nova possibilidade para esse repertório: transformar percepção em narrativa.


Hoje, seu trabalho atravessa moda, entretenimento, campanhas, eventos e bastidores. Mas existe algo que permanece independentemente do projeto: a tentativa de encontrar, dentro de uma situação, aquilo que merece ser percebido.


OLIVER: entre o real e a imagem

Talvez seja por isso que o mobile faça tanto sentido em sua linguagem.


O iPhone permite proximidade. E proximidade permite presença.

Em vez de esperar que a cena se organize perfeitamente diante da câmera, Oliver trabalha dentro dela. Acompanha o movimento, percebe as mudanças e procura aquilo que acontece enquanto tudo ainda está acontecendo.


Um olhar que dura um segundo. Uma mudança de expressão. A energia de um set. A expectativa antes de um clique. A relação entre as pessoas que fazem uma produção acontecer.


É desse interesse pelo que existe antes da imagem final que nasce o DESconstrução, projeto realizado ao lado do fotógrafo Anderson Macedo. Se a fotografia registra o instante que permanece, o projeto volta para o processo que tornou aquele instante possível.

Ali, o bastidor deixa de ser apenas bastidor. Torna-se parte da história.


OLIVER: entre o real e a imagem

A preparação, os movimentos, os encontros, a tensão, a expectativa e a energia de um dia de trabalho passam a ter o mesmo valor narrativo da fotografia que resultou de tudo aquilo.


Essa maneira de enxergar também acompanha a relação de Oliver com as pessoas que passaram por sua câmera. Cariúcha, Jesus Luz, Marcos Pitombo, Erika Schneider, Cela, Gabi Cabrini, Jaquelline, Natacha Horana, Ismeiow e Lucas Souza fazem parte desse percurso, ao lado de marcas e produções ligadas à moda, ao entretenimento e ao lifestyle.


São universos diferentes, mas existe uma constante: a tentativa de não apenas registrar quem está diante da câmera, mas entender o que aquela pessoa, aquele momento e aquele contexto pedem da imagem.


É assim que uma linguagem começa a se formar.

Não pela repetição de uma fórmula, mas pela capacidade de transformar referências em escolhas próprias. De olhar para o que já existe e encontrar outra maneira de contar.


OLIVER: entre o real e a imagem

Em 2026, esse olhar também atravessou o Atlântico.

Roma colocou Oliver diante de uma paisagem diferente daquela que ajudou a formar sua linguagem. Outra arquitetura, outra atmosfera, outras referências e um novo contexto profissional.


Mais do que uma experiência internacional, foi uma oportunidade de testar aquilo que vinha construindo longe do ambiente em que havia aprendido a fazê-lo.


E talvez seja justamente isso que torna a experiência significativa: perceber que uma linguagem não pertence necessariamente ao lugar onde nasceu.

Ela pode viajar.

Pode encontrar outras pessoas, outras cidades e outras histórias sem deixar de ser reconhecível.


Oliver ainda está construindo esse caminho. Não há uma fórmula fechada, nem a necessidade de chegar rapidamente a uma definição. Existe espaço para experimentar, aperfeiçoar, mudar de direção e descobrir o que vem depois.


A tecnologia também continuará mudando. O equipamento será atualizado. Os formatos vão se transformar.

Mas há algo que permanece no centro de seu trabalho: a capacidade de perceber.


É sobre essa formação do olhar, sobre o processo que existe antes da imagem e sobre aquilo que Oliver quer preservar enquanto seu trabalho cresce que conversamos a seguir.


1. Antes de trabalhar com imagens, você passou anos trabalhando com pessoas. O que o varejo de moda te ensinou sobre comportamento que hoje aparece, mesmo sem você perceber, no seu trabalho?


Foram anos me dedicando ao varejo, primeiro como vendedor e depois como gerente de loja, e isso me ensinou muito sobre postura, comunicação e, principalmente, sobre como somos percebidos. Sempre fui uma pessoa muito observadora, então o varejo desenvolveu em mim esse senso de analisar o comportamento antes de agir.
A moda também me trouxe um olhar muito refinado para os detalhes. No visual merchandising, por exemplo, você aprende que tudo importa: a organização de uma arara, a vitrine, a peça estar bem posicionada, a limpeza e a operação da loja. São pequenos detalhes que, juntos, trazem todo o refinamento.
Hoje eu levo isso para o audiovisual. Quando um cliente me procura, ele está buscando o meu olhar. Então eu preciso entender o propósito daquela imagem e conduzir cenário, pessoas, comportamento, luz, enquadramento e todos os elementos para que eles conversem entre si.

2. Existe uma diferença entre registrar o que aconteceu e perceber aquilo que merece ser contado. Em que momento você começou a perceber que estava construindo uma linguagem própria?


Acho que isso aconteceu quando comecei a confiar mais no meu próprio olhar. Parei de olhar o tempo inteiro para o que as pessoas estavam fazendo e comecei a olhar mais para mim: confiar na minha direção, na minha percepção, na minha edição e nas escolhas que faço.
Essa linguagem própria vai sendo construída na prática. É como quando você olha para o trabalho de um artista e consegue reconhecer que aquilo pertence a ele. Não significa deixar de ter referências, mas transformar essas referências em algo seu.
Hoje, quando recebo uma referência de um cliente, não penso em reproduzi-la exatamente. Penso em entender a ideia por trás dela e fazer uma releitura através do meu olhar. É aí que acredito que a referência deixa de ser cópia e passa a ser inspiração.

3. No DESconstrução, você volta para aquilo que acontece antes da fotografia existir: o processo, o movimento, a preparação. O que existe nesses momentos que você sente que precisa ser mostrado?


Eu encontro a energia e a conexão que existem por trás daquela imagem. Quando você vê uma fotografia pronta, muitas vezes não imagina tudo o que aconteceu naquele dia dentro do estúdio: a preparação, as pessoas envolvidas, a expectativa, a emoção e, muitas vezes, até o sonho de alguém que está vivendo aquele momento.
O DESconstrução nasceu muito desse desejo de mostrar o que normalmente fica invisível. Quero mostrar a energia do set, os movimentos, os encontros e tudo o que aconteceu para chegar àquela imagem final.
É fazer com que quem assista não veja apenas o resultado, mas consiga sentir que esteve presente naquele dia.

4. Roma colocou o seu trabalho diante de outro contexto cultural e profissional. O que estar fora do Brasil revelou sobre o caminho que você está construindo?


Totalmente. Foi uma experiência muito valiosa, tanto como pessoa quanto como profissional. Estar fora do Brasil e perceber que o meu trabalho também pode ser visto e valorizado em outros lugares me fez acreditar ainda mais no caminho que estou construindo.
Foi como olhar para mim mesmo e pensar: “Você está no caminho certo. Continue acreditando no seu olhar.”
Desde criança eu tinha o desejo de trabalhar com alguma coisa que me proporcionasse viagens e experiências. Hoje, sendo videomaker, vejo isso acontecendo cada vez mais. Poder trabalhar fora do país e levar o meu olhar para outros lugares é, para mim, a realização de um sonho.

5. O iPhone pode mudar, a tecnologia pode mudar e os mercados também. O que você não gostaria de perder no seu trabalho, independentemente de tudo isso?


O meu olhar. A tecnologia pode mudar, o iPhone pode mudar, os equipamentos podem evoluir, mas eu não quero perder a minha capacidade de observar e perceber aquilo que merece ser contado.
Também não quero perder o meu lado artístico. A técnica é muito importante, mas existe um feeling que vem junto: perceber que determinada cena pede uma câmera mais lenta, que determinado corte funciona melhor, que aquela música conversa mais com a história.
Acredito que equipamento é ferramenta. O que realmente diferencia o trabalho é a forma como você enxerga e transforma aquilo em narrativa.

6. E, para fechar: qual é a sua voz? Se pudesse dizer uma única coisa para o mundo, o que gostaria que ele ouvisse?


Confie no seu interior. Ele sabe o que é melhor para você.
A gente vive cercado de informações, referências e comparações e, muitas vezes, esquece de se perguntar o que realmente quer para si. Para onde quer ir? Se está feliz? Se está sendo respeitado? Se aquilo que está vivendo realmente faz sentido?
Acredito que precisamos parar de estar tão presentes na vida dos outros, online ou fisicamente, e começar a estar mais presentes na nossa própria vida. Aprender a lidar com nossos silêncios, nossas angústias, nossos sonhos e nossos desejos.
Precisamos nos acolher e aprender a ser nossos melhores amigos internamente.
E, para isso, às vezes é preciso simplesmente parar e observar o nosso redor. Não pensar que estamos atrasados o tempo inteiro. Tomar um café com calma, saborear aquele momento, perceber onde estamos. Dar espaço para nós mesmos sairmos um pouco do automático e voltarmos a nos sentir.
Acho que é nesse silêncio que a gente começa a ouvir a nossa própria voz.

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