Dra. Flávia Cury Rezende: a excelência não acontece por acaso
- Evely Oliveira

- há 1 dia
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'BUSINESS' EDITION COVER - AUGUST 2026 ISSUE

Antes da dermatologista que conhecemos hoje, existiu uma menina que precisou conquistar cada etapa da própria trajetória com muito estudo, muito trabalho e uma disciplina difícil de negociar. O lugar que ocupa hoje não surgiu de um caminho rápido. Foi construído aos poucos, entre livros, plantões, provas e uma rotina que, durante a preparação para a residência, chegou a incluir dez horas de estudo por dia.
Antes de escolher a Dermatologia, Flávia decidiu seguir pela Clínica Médica no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). A experiência ampliou sua forma de enxergar o paciente e continua presente na médica que é hoje. A pele nunca deixou de ser o foco, mas passou a ser observada como parte de um organismo inteiro, e não de maneira isolada.
Dra. Flávia Cury Rezende é médica dermatologista formada pela Faculdade de Medicina do ABC, com residência em Clínica Médica pelo Hospital das Clínicas da FMUSP. É titulada em Dermatologia pela Associação Médica Brasileira e pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, membro efetivo da SBD e também participou da formação de novos profissionais como preceptora da Pesquisa Clínica da Cosmiatria e do ambulatório de psoríase e imunobiológicos da FMABC.

As credenciais ajudam a contar sua trajetória, mas não explicam completamente quem ela é. Existe uma ideia que aparece repetidamente quando fala sobre a profissão e que, de certa forma, organiza sua maneira de trabalhar: estudar nunca foi apenas um requisito para avançar na Medicina. Sempre foi uma forma de respeitar quem estaria do outro lado da consulta.
“Estudo não é só um detalhe. Estudo é responsabilidade com o próximo.”
A frase resume uma convicção que ela leva para dentro do consultório há mais de uma década. Para Flávia, conhecimento não é apenas um diferencial profissional. É uma obrigação de quem escolheu cuidar de pessoas. Talvez seja por isso que a atualização continue ocupando espaço em sua rotina, mesmo depois da formação, da residência e da consolidação da carreira.
Essa visão também molda a maneira como ela entende a Dermatologia estética.
Em um momento em que procedimentos ganharam espaço nas redes sociais e resultados imediatos costumam receber mais atenção do que diagnósticos bem feitos, Flávia prefere começar por outra pergunta: o que realmente faz sentido para aquela paciente?
Para ela, cuidar da aparência não significa transformar alguém em outra pessoa. Significa compreender o que incomoda, identificar o que pode ser melhorado e respeitar aquilo que torna cada rosto único. A estética, quando bem conduzida, não apaga identidades.
Ela acompanha a história de quem está ali.
Existe uma diferença importante entre realizar um procedimento e saber quando ele deve, ou não, ser indicado. É nesse intervalo que entram o olhar clínico, a experiência e o senso de responsabilidade que ela considera indispensável à especialidade.

Quem convive com Flávia costuma descrever uma característica marcante de sua personalidade profissional: o perfeccionismo. Ela concorda, mas faz uma ressalva. Na Medicina, buscar o melhor resultado nunca pode significar ultrapassar o limite da segurança. O bom resultado, para ela, precisa existir dentro desse equilíbrio entre técnica, conhecimento e prudência.
Ao longo dos anos, sua carreira passou por diferentes fases. A FC Dermatologia representa um capítulo importante dessa construção e faz parte da história que consolidou seu nome na especialidade. Hoje, vive um novo momento profissional, sem abrir mão daquilo que considera essencial: continuar estudando, aperfeiçoando o olhar e recebendo cada paciente com o mesmo cuidado que guiou o início de sua trajetória.
Quando olha para trás, o reconhecimento parece consequência de um processo muito maior do que títulos ou procedimentos bem executados. Ele nasce da constância. Dos anos dedicados ao estudo, da experiência acumulada na prática clínica e da decisão diária de fazer melhor do que no dia anterior.

Talvez seja essa a melhor forma de entender sua história: não como a trajetória de uma dermatologista que chegou a um ponto de excelência, mas de uma médica que continua tratando o aprendizado como parte inseparável da profissão.
É sobre esse caminho, sobre o que a Medicina exige de quem decide exercê-la e sobre a mulher que existe por trás da dermatologista que Dra. Flávia Cury Rezende fala nesta entrevista.
1. Antes da dermatologista, existiu uma menina que precisou conquistar cada etapa da própria trajetória com muito trabalho. Você estudava por horas para entrar na residência e construiu sua formação passo a passo. O que aquela menina tinha que você fez questão de não perder ao longo dos anos?
Acho que aquela menina tinha, acima de tudo, determinação. Desde a faculdade de Medicina, eu tinha o sonho de ser dermatologista e aprendi muito cedo que, para realizá-lo, não bastava querer. Era preciso trabalhar, estudar e persistir.
Cheguei a dar aulas de inglês para conseguir juntar dinheiro, e foram anos estudando muitas horas por dia até conseguir entrar na residência. Foram dois anos de Clínica Médica antes da Dermatologia e, depois, mais três anos de residência, quando também engravidei. Foi uma fase muito intensa, mas que me ensinou muito.
Hoje, olhando para trás, percebo que nem sempre o caminho que imaginamos é o caminho que a vida nos reserva. Ter fé, para mim, é confiar que a vida reserva desfechos surpreendentes, mas que precisamos também fazer a nossa parte. Muitas vezes, Deus nos conduz por caminhos mais bonitos e felizes do que qualquer plano que a nossa mente poderia ter imaginado.

2. Sua formação começou na Clínica Médica, no Hospital das Clínicas, antes da Dermatologia. O que aqueles anos mudaram na maneira como você olha para um paciente hoje?
A Clínica Médica me deu uma base de Medicina que considero fundamental, mas talvez o maior legado daqueles dois anos não esteja exatamente naquilo que eu uso de forma teórica no meu dia a dia. Está na bagagem, na vivência e na experiência que construí ali.
Foram dois anos vividos de uma maneira muito intensa, dentro de um dos maiores hospitais do país, convivendo diariamente com pacientes, doenças e situações que exigiam muito de mim. Eu entrei ali como uma menina, uma médica ainda muito jovem, e saí como uma mulher e uma médica muito mais preparada para enfrentar os desafios que viriam pela frente.
Foi uma experiência que me transformou. E essa segurança, esse olhar mais amplo para o paciente e essa capacidade de enxergar o indivíduo para além da queixa que o trouxe até mim são coisas que eu carrego comigo até hoje. Foi, sem dúvida, uma das experiências mais importantes e bonitas da minha formação.

3. Você costuma dizer que “estudo não é só um detalhe. Estudo é responsabilidade com o próximo”. O que essa frase significa para você na prática, principalmente quando alguém coloca nas suas mãos a própria saúde, a própria imagem e, muitas vezes, uma insegurança que nem sempre consegue colocar em palavras?
Para mim, conhecimento é uma forma de cuidado.
Quando alguém entra no meu consultório, está confiando em mim algo muito íntimo. Às vezes, é uma doença; às vezes, é uma queda de cabelo, uma cicatriz, uma mudança causada pelo envelhecimento ou simplesmente algo na própria imagem que começou a incomodar.
Por isso, eu não acredito em parar de estudar depois que a residência termina. Pelo contrário. A residência foi apenas o começo.
Eu estudo continuamente, participo de congressos, acompanho novas tecnologias, leio artigos e procuro entender o que realmente tem evidência por trás de cada novidade. Existe muita coisa nova surgindo o tempo inteiro na Dermatologia e, para mim, é responsabilidade do médico saber separar aquilo que realmente pode beneficiar o paciente daquilo que é apenas uma tendência.
Eu procuro unir conhecimento, experiência e bom senso. Porque não quero apenas entregar um resultado bonito. Quero entregar um resultado bonito, natural e seguro.

4. Depois de mais de dez anos de profissão, você provavelmente aprendeu que nem sempre o que o paciente pede é, de fato, o que ele precisa. Quando uma paciente chega querendo mudar alguma coisa em si, o que você procura entender antes de decidir se aquela mudança realmente faz sentido?
Primeiro, eu procuro entender o que está por trás daquela vontade de mudança.
Às vezes, a paciente chega pedindo um procedimento específico, mas, quando conversamos, percebemos que a queixa é outra. Pode ser uma característica que ela sempre teve, uma mudança que aconteceu com o tempo ou até uma insegurança que ficou muito
maior do que aquela característica realmente é.
Por isso, eu gosto muito de ouvir antes de propor.
Também observo a pessoa como um todo: idade, características individuais, qualidade da pele, estrutura facial, proporções, estilo de vida e, principalmente, o que é possível fazer sem apagar a identidade daquela pessoa.
Eu acredito muito em individualização. Não existe uma receita pronta. Duas pessoas podem chegar com a mesma queixa e precisar de estratégias completamente diferentes.
E existe também a importância de saber dizer não. Nem tudo que pode ser feito deve ser feito. Muitas vezes, o melhor tratamento é explicar que determinada intervenção não vai trazer o resultado que aquela pessoa imagina ou que, naquele momento, ela simplesmente não precisa daquilo.

5. Você é extremamente exigente com o resultado, mas também entende que, na Medicina, fazer mais nem sempre significa fazer melhor. Como você reconhece o momento em que um resultado já chegou ao ponto certo?
Eu acho que não existe uma resposta única para isso. Não existe uma regra dizendo: “aqui está o ponto certo”. Existem limites médicos, éticos e de segurança que precisam sempre ser respeitados, mas, dentro desses limites, o que é um bom resultado também depende da expectativa e da satisfação de cada paciente.
Por isso, para mim, o primeiro passo é alinhar expectativas. Eu preciso entender o que aquela pessoa espera, o que realmente a incomoda e o que é possível entregar. E esse alinhamento precisa acontecer desde o início, porque muitas vezes o paciente já se sente muito satisfeito com uma melhora que, para mim, ainda poderia ser aprimorada. E está tudo bem. O resultado precisa fazer sentido para aquela pessoa.
Também acontece o contrário. Às vezes, eu considero que chegamos a um resultado muito bom, mas o paciente é mais exigente e deseja melhorar ainda mais. E também não existe nada de errado nisso, desde que exista possibilidade técnica e que estejamos dentro de limites seguros.
Uma cicatriz é um bom exemplo. Muitas vezes, não existe um momento em que podemos dizer que ela chegou ao “ponto certo” de forma absoluta. Podemos melhorar textura, cor, espessura, qualidade da pele. O limite vai depender da resposta daquele organismo e, principalmente, do quanto aquela pessoa está satisfeita.
Então, eu diria que o ponto certo é uma construção. É o encontro entre aquilo que é tecnicamente possível, aquilo que é seguro e aquilo que faz sentido para o paciente.
Eu sou muito exigente com os meus resultados, mas aprendi que a Medicina não é sobre perseguir uma perfeição. É sobre entregar a melhor versão possível daquele resultado para aquela pessoa, respeitando sua individualidade.

6. Depois de tudo o que você estudou, construiu e viveu até aqui, o que ainda sente que precisa dizer? Se pudesse deixar uma única mensagem para ser ouvida por mais pessoas, qual seria?
Eu diria que saúde é uma construção. E que cuidar da aparência também faz parte desse cuidado, mas não pode ser separado do restante.
Nós conseguimos resultados estéticos muito bonitos hoje. Temos tecnologias, medicamentos, procedimentos e tratamentos que evoluíram enormemente. Mas, se uma pessoa não cuida da própria saúde, não se movimenta, não faz atividade física, não se alimenta adequadamente, não dorme bem e não olha para o próprio corpo de uma forma integral, os resultados que conseguimos na estética também terão seus limites.
Foi justamente a minha formação em Clínica Médica, somada à Dermatologia, que me ensinou a olhar para o indivíduo dessa maneira. Eu não consigo olhar apenas para a pele que está na minha frente. Existe uma pessoa inteira por trás dela.
E essa é uma das coisas que mais amo na Dermatologia. É uma especialidade que cuida de pele, cabelos e unhas, mas que também nos permite entender o paciente de forma muito ampla. A pele muitas vezes é o primeiro lugar onde percebemos que alguma coisa não está bem, e o dermatologista precisa ter conhecimento médico para reconhecer isso.
Por isso, acredito muito na importância de procurar um médico que tenha formação em Dermatologia. O dermatologista não é apenas o profissional que trata uma queixa estética. É o médico que estudou para cuidar das doenças e condições da pele, dos cabelos e das unhas e que precisa compreender o paciente como um todo.
No final, cada indivíduo é único, mas também é global. Não dá para separar pele, corpo, saúde, hábitos, envelhecimento e autoestima como se fossem coisas independentes.
Talvez essa seja a mensagem que eu mais gostaria de deixar: cuidar de si não é tentar corrigir tudo o que você vê no espelho. É entender que você é um conjunto e que saúde, autoestima e bem-estar precisam caminhar juntos.




































