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Dra. Kaísa Justo e a construção silenciosa de uma autoridade que não segue tendências: cria permanência

'LEGACY' COVER EDITION - DECEMBER 2025 ISSUE

Existe uma diferença clara entre quem ocupa espaço e quem constrói permanência. A Dra. Kaísa Justo pertence ao segundo grupo. Sua trajetória na medicina, iniciada ainda nos anos 1990, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, cidade onde nasceu, não foi moldada pela pressa dos resultados imediatos nem pelo apelo de padrões preestabelecidos. Foi construída com tempo, rigor técnico e um olhar que atravessa a medicina e alcança a arte, a estética e a sensibilidade humana.


Cirurgiã plástica por escolha consciente, Kaísa carrega uma assinatura rara no mercado contemporâneo: precisão cirúrgica aliada a uma leitura profunda da individualidade. Para ela, a cirurgia plástica não é sobre transformar corpos, mas sobre revelar versões mais alinhadas de quem a pessoa já é. Um pensamento que se opõe à lógica industrializada da estética atual.

Beleza não é perfeição. É autenticidade, diz ela.


Dra. Kaísa Justo e a construção silenciosa de uma autoridade que não segue tendências: cria permanência

Antes de ser cirurgiã, Kaísa foi criadora. Ainda criança, encontrou nas atividades manuais um território de expressão e foco. Costura, artesanato, macramê, crochê, renda nordestina dentre outros. O hiperfoco que hoje se traduz em excelência técnica começou ali. Seu primeiro sonho foi a moda. Chegou a conquistar uma bolsa de estudos em Milão, interrompida pela falta de recursos familiares. A medicina entrou depois, mas nunca apagou essa formação sensível.

A adaptação à faculdade não foi simples. Foi no retorno ao curso que Kaísa encontrou uma referência decisiva, a cirurgiã pediátrica e professora Yvelise de Verney. Mais do que técnica, ela apresentou um modelo de conduta médica e humana. Com ela, Kaísa entrou precocemente no centro cirúrgico e aprendeu que a medicina também se constrói pela ética e pelo olhar atento ao outro.


Dra. Kaísa Justo e a construção silenciosa de uma autoridade que não segue tendências: cria permanência

A afinidade com a cirurgia foi imediata, embora a especialidade ainda fosse incerta. Kaísa chegou a se dedicar à cirurgia pediátrica, mas a convivência com o sofrimento infantil, somada à maternidade, tornou esse caminho emocionalmente inviável. Foi nesse ponto que surgiu outro nome essencial em sua trajetória.

Durante a residência médica, o cirurgião Oscar Leite teve papel decisivo ao reconhecer que seu talento estava na Cirurgia Plástica. Foi ele quem sustentou essa transição, reforçando que ali existe medicina em sua forma mais complexa, onde técnica, reconstrução e responsabilidade caminham juntas.


Essa base tornou-se diferencial. Kaísa compreendeu que dominar a técnica não bastava. Era preciso desenvolver um olhar estético capaz de perceber nuances que não cabem em protocolos rígidos.

Dra. Kaísa Justo e a construção silenciosa de uma autoridade que não segue tendências: cria permanência

Cada corpo e cada rosto como uma obra única.


Sua sensibilidade visual transformou-se em método. Um olhar treinado para observar gestos, escutar desejos subjetivos e traduzir expressões como “quero algo delicado” ou “natural” em decisões cirúrgicas precisas. Operar, para ela, é olhar e executar com a mesma atenção.


Em um mercado orientado por tendências e resultados altamente visuais, Kaísa escolheu a contramão. Sua prática clínica se apoia em três pilares: Personalização, Ética e Longevidade. Isso significa, muitas vezes, dizer não, desconstruir referências externas e educar pacientes sobre proporção, limites e envelhecimento saudável.

Ela não acredita em copiar rostos ou fabricar corpos genéricos. A cirurgia, em sua visão, deve envelhecer bem, respeitar a anatomia e preservar a identidade. O maior elogio, segundo ela, é quando ninguém percebe que houve uma cirurgia, apenas nota-se que algo está mais harmônico, mais confiante, mais verdadeiro.


Essa postura exige maturidade, algo que apenas o tempo de carreira ensina. Ser mulher na medicina já impõe desafios estruturais. Ser mulher, médica e autista exige ainda mais consciência de si. Durante anos, Kaísa acreditou que precisaria se moldar, até compreender que autoridade nasce da autenticidade.

O autismo, vivido por muito tempo em silêncio, hoje integra sua narrativa com responsabilidade. Não como vitimismo, mas como conscientização. Uma condição que impõe limites reais, mas também potencializa foco, análise profunda e atenção aos detalhes.


Dra. Kaísa Justo e a construção silenciosa de uma autoridade que não segue tendências: cria permanência

Depois de décadas de atuação, Kaísa construiu um legado sólido. O futuro, para ela, não é ruptura, é aprofundamento. Expandir esse legado significa inspirar uma medicina mais humana, transmitir valores às próximas gerações, inclusive ao filho que seguiu a mesma carreira, e reafirmar que excelência técnica pode coexistir com sensibilidade, ética e feminilidade.


Ela não deseja ser lembrada apenas pelos resultados estéticos, mas pelo impacto emocional e identitário que promoveu. Uma cirurgiã que devolveu não apenas formas, mas confiança e alinhamento interno.


É a partir dessa visão que se constrói a conversa a seguir.

Nesta entrevista, a Dra. Kaísa Justo fala sobre estética, identidade, moda, responsabilidade médica e o legado de uma carreira pensada para atravessar o tempo.


  1. Sua trajetória na Cirurgia Plástica é marcada por precisão técnica, mas também por uma estética muito clara. Em que momento você percebeu que sua sensibilidade visual, algo que vai além da medicina, seria um diferencial real na forma como você constrói resultados e se comunica com suas pacientes?


A percepção de que minha sensibilidade visual seria um diferencial veio de forma gradual, mas se tornou muito clara quando compreendi que a cirurgia plástica vai muito além de corrigir ou transformar. Ela é sobre harmonia, equilíbrio e sobre expressar quem a paciente realmente é.
Durante minha formação, percebi que cada corpo e cada rosto carregam traços únicos, quase como uma obra de arte esperando para ser valorizada. A medicina nos ensina anatomia, proporções e medidas, mas foi a minha sensibilidade artística que me permitiu enxergar nuances que não estão nas tabelas. Isso ficou evidente quando notei que minhas pacientes voltavam não apenas satisfeitas com o resultado físico, mas com a sensação de terem sido vistas e respeitadas em sua individualidade.
O verdadeiro ponto de virada aconteceu quando percebi o impacto emocional de resultados personalizados. Eu não estava seguindo padrões, mas criando estratégias estéticas que respeitavam histórias e identidades. Entendi que beleza não é perfeição, é autenticidade. E que operar é alinhar técnica e arte.
Dra. Kaísa Justo e a construção silenciosa de uma autoridade que não segue tendências: cria permanência

  1. Você costuma dizer que a Cirurgia Plástica não é sobre transformar corpos, mas sobre revelar versões mais alinhadas de quem a pessoa já é. Como essa filosofia influencia suas decisões clínicas e a maneira como você conduz cada caso, especialmente em um mercado cada vez mais padronizado?


Essa filosofia guia todo o meu trabalho. Em um mercado cada vez mais padronizado, manter esse posicionamento é um compromisso ético com a individualidade, a autoestima e a saúde das pacientes.
Desde a primeira consulta, evito seguir modismos ou referências externas. Meu papel é entender quem aquela mulher é, como ela se enxerga e o que na aparência dela não reflete essa percepção. A cirurgia passa a ser uma ferramenta de alinhamento, não de descaracterização.
Evito intervenções exageradas e priorizo resultados que envelheçam bem, respeitem a anatomia e preservem identidade. Muitas vezes isso significa educar, recusar pedidos ou desconstruir expectativas irreais. A beleza verdadeira está na singularidade, e meu trabalho é proteger isso.
Dra. Kaísa Justo e a construção silenciosa de uma autoridade que não segue tendências: cria permanência

  1. Ao longo da sua carreira, você construiu autoridade médica sem abrir mão da sua identidade pessoal. Como foi o processo de entender que imagem, posicionamento e narrativa também são ferramentas estratégicas, especialmente para uma mulher médica em um espaço historicamente rígido?


Esse entendimento foi profundo e pessoal. Como mulher, médica e autista, precisei lidar com expectativas muito rígidas sobre comportamento e imagem. No início, achei que precisava me adaptar completamente.
Com o tempo, entendi que a verdadeira autoridade nasce da autenticidade. Meu autismo me trouxe foco, sensibilidade estética, atenção aos detalhes e escuta profunda. Aceitar isso como parte da minha identidade foi libertador.
Imagem, para mim, não é aparência, é mensagem. Desde a forma como me visto até o design da clínica e o tom da comunicação, tudo reflete quem sou como profissional. Minha narrativa nunca foi construída como estratégia vazia, mas como extensão da minha essência. Ao assumir minha singularidade, minha autoridade se fortaleceu.

  1. Existe uma linha muito tênue entre desejo estético e responsabilidade médica. Como você equilibra a pressão por resultados altamente visuais com a ética, o cuidado e a longevidade dos resultados que você defende como profissional?


Esse equilíbrio acontece quando saúde, ética e harmonia estão acima de qualquer demanda estética imediata. Meu compromisso é educar, orientar e, quando necessário, dizer não.
Não trabalho para atender tendências, mas para criar resultados que respeitem o corpo, a individualidade e o tempo. Recuso procedimentos que comprometam a integridade da paciente. Resultados duradouros e naturais sempre serão mais valiosos do que impactos passageiros.
Dra. Kaísa Justo e a construção silenciosa de uma autoridade que não segue tendências: cria permanência
  1. Sua clínica reflete um olhar cuidadoso para experiência, detalhe e atmosfera. Você enxerga o espaço físico, o atendimento e até a comunicação como extensões do seu trabalho cirúrgico? O que é inegociável para você quando o assunto é experiência da paciente?


Sem dúvida. Minha clínica é uma extensão da minha filosofia de cuidado. Cada detalhe foi pensado para transmitir acolhimento, calma e sofisticação.
O ambiente precisa fazer a paciente se sentir segura desde o primeiro momento. O lago com peixes simboliza tranquilidade e desaceleração. O inegociável é o acolhimento. A paciente precisa se sentir respeitada e protegida em todas as etapas.

  1. Você é uma mulher que ocupa múltiplos papéis, médica, empreendedora, líder e referência estética. Em quais momentos dessa jornada você precisou se reposicionar, não tecnicamente, mas emocionalmente, para sustentar o crescimento sem se perder de si mesma?


Houve muitos momentos de reposicionamento emocional. Como mulher, mãe, médica e autista, precisei abandonar a ideia de perfeição.
No início, tentei me encaixar em padrões que não respeitavam minha natureza, o que gerava exaustão. O crescimento veio quando abracei minha singularidade e entendi que estar inteira é mais importante do que estar disponível o tempo todo.
Respeitar meus limites, aprender a dizer não e cuidar da minha energia emocional foi essencial para crescer de forma sustentável.

  1. Falando agora de Moda, algo que poucas pessoas sabem, mas que faz parte da sua história desde cedo. Você costura desde muito jovem e já chegou a confeccionar um vestido de paetê, lantejoula por lantejoula. O que a moda te ensinou sobre paciência, construção e olhar para o detalhe que hoje você leva para a cirurgia plástica?


A costura moldou profundamente quem eu sou. Confeccionar aquele vestido, lantejoula por lantejoula, me ensinou que não existem atalhos quando se busca excelência.
A moda me ensinou paciência, respeito ao processo e atenção absoluta aos detalhes. Na cirurgia, é exatamente assim. São os pequenos ajustes que constroem resultados extraordinários. Criar algo sob medida é respeitar identidade, seja em um vestido ou em um corpo.
Dra. Kaísa Justo e a construção silenciosa de uma autoridade que não segue tendências: cria permanência

  1. Assim como na alta-costura, onde nada é realmente sob medida sem escuta e observação profunda, seus procedimentos também parecem partir de um entendimento individual do corpo. Você se vê mais próxima de uma lógica artesanal do que industrial quando pensa no seu trabalho?


Completamente. Meu trabalho é artesanal. Cada paciente é única e cada procedimento nasce da escuta, da observação e do respeito à individualidade.
Não acredito em soluções prontas ou produção em escala. A cirurgia plástica, para mim, é construção cuidadosa, como a alta-costura.

  1. Com uma trajetória construída ao longo de décadas na medicina e na cirurgia plástica, você já consolidou um legado sólido, reconhecido e consistente. Ao olhar para o futuro, como você deseja expandir e aprofundar esse legado, não apenas como cirurgiã plástica, mas como mulher que transformou sensibilidade estética, excelência técnica e visão estratégica em uma marca pessoal respeitada, autoral e profundamente feminina?


Meu desejo é expandir esse legado inspirando uma medicina mais humana, ética e personalizada. Quero transmitir essa visão às próximas gerações, inclusive ao meu filho, que seguiu a mesma carreira.
Quero ser lembrada por ter unido técnica, sensibilidade e identidade feminina de forma autêntica, criando resultados que vão além da estética e tocam a autoestima e a essência das pessoas.
Dra. Kaísa Justo e a construção silenciosa de uma autoridade que não segue tendências: cria permanência

  1. E, por último, mas não menos importante, qual é a sua voz? O que você gostaria de gritar para o mundo se tivesse a oportunidade?


Minha voz celebra a singularidade. Como pessoa autista, acredito profundamente na neurodiversidade e na beleza que existe nas diferenças.
Se eu pudesse gritar algo, seria: honre quem você é por inteiro. Corpo, mente, história e identidade. A verdadeira beleza está na autenticidade.

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